Teatro Barracão

 

O brilho e a simpatia de Aline Luz

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Por Wilame Prado

A cidade terá a chance de ver brilhar pela primeira vez uma nova compositora maringaense a partir das 21 horas deste sábado (30), quando Aline Luz, 26 anos, subirá ao palco do Teatro Barracão para fazer o seu primeiro show. Todo mundo da plateia terá em mãos o primeiro CD dela “Aline Luz”, contendo doze faixas de canções simpáticas, que mesclam pop rock, folk, MPB e uma voz doce, como a própria cantora. Show e disco são de graça.

Contemplada na categoria Artistas Iniciantes do Prêmio Aniceto Matti, Aline tem cinco datas de shows confirmadas em Maringá e a tiragem de mil cópias do álbum, que será distribuído para cada um que for aos shows. Além de sábado, ela cantará no Barracão no domingo, no mesmo horário. Em junho, apresenta-se nos dias 6 no Teatro de Oficina da UEM e 13 e 14, retornando ao Barracão.

Aline deu entrevista quinta-feira, no térreo do Teatro Calil Haddad. Ao seu lado, o inseparável violão, que começou a tocar aos 12, meio que a contragosto da mãe, pianista que sugeria às filhas (Aline tem uma irmã gêmea que também toca e canta)um bom curso de piano. Fez as duas coisas, e ainda participou de grupos de corais. O tempo passou. Todos sempre elogiaram o timbre e a facilidade com que Aline tem quando coloca as mãos nas seis cordas de aço de um violão.

Nos churrascos, não tinha tempo para sequer tomar água, quiçá uma cervejinha. Todos queriam vê-la cantar o cancioneiro consagrado do pop rock anos 1980 e 90, Kid Abelha, Skank, Titãs, Pato Fu e por aí vai. As ambições profissionais nunca a distanciaram da música: hoje, formada em Psicologia na UEM e residente no Observatório Social, os churrascos e as cantorias continuam, até mesmo onde mora,numa república na Zona 7, onde divide apartamento com duas amigas.

Mas algo mudou na vida de Aline há aproximadamente oito anos. Uma tragédia pessoal fez com que ela ultrapassasse a barreira que separa a interpretação da composição. Mais precisamente em 17 de julho de 2007, ela viu na lista das vítimas do fatídico acidente com uma aeronave da TAM, em São Paulo, o nome de sua tia, incentivadora do seu talento, e, curiosamente, dona daquele primeiro violão com que teve contato e que possibilitou a entrada da música em sua vida. Aline precisava compor para pelo menos tentar expulsar a a dor.

“Queria saber fazer um samba pra você/Mas meu coração só quer saber de blues”, são os versos iniciais da canção “Samba Blues”, primeira composição e que foi dedicada à memória da tia. “Não imaginava que levaria em frente a música. Estava na faculdade, recebi a notícia do acidente de avião. Compus pela primeira vez demonstrando ali a minha tristeza e a minha incapacidade de fazer qualquer coisa em meio ao luto. Minha tia era minha mãe também. Três dias antes do acidente, estávamos todos juntos de férias, em Foz. Não dava pra acreditar”.

Apreciadora da poesia, Aline conta que, antes, tentava cometer alguns poemas. E nada mais. A composição veio como luz, sem trocadilhos. Não parou mais. E hoje, ao apresentar o seu primeiro disco, percebe-se uma artista ainda em evolução, mas com duas joias raras em mãos: uma bonita voz, que se assemelha a vozes femininas da moda (Malu Magalhães, Uyara Torrente, Tiê, Clarice Falcão), e uma interessante maturidade nas letras.

Graça e leveza
À primeira vista, pode-se pensar que Aline Luz faz música romântica. Não é bem por aí. Há história de amor sim, mas há leveza e graça. Em “Cicatriz”, primeira faixa do CD e vencedora na categoria Aclamação Popular no 5º Festival Nacional Acorde Universitário, ela fala de um certo João que a deixa “sem chão” enquanto um tal Rafael a deixa só com seu “véu”.

Ela é também “família” na hora de compor. Além da canção dedicada à tia, o avô ganhou música também. A circense “Palhaço Mudo” – outra música premiada em festival – é homenagem ao avô, que a ensinou a ver filmes do Chaplin. “Hoje sou meio cinéfila graças a ele”, diz Aline, que, recentemente, compôs uma música inspirada pelo filme “Selma”, produção indicada ao Oscar e que narra a trajetória do pastor protestante e ativista social Martin Luther King. Percebe-se aqui também o lado social da psicóloga Aline Luz. O trabalho também é inspiração musical, diz ela. “Na música ‘Estação’, falo da alienação do trabalho. ‘Cantiga Urbana’ é a história de um menino de rua.”

Ainda trabalhando sua timidez, ela revela que o palco não a amedronta, mas se trata de experiência nova para quem nunca fez questão de tocar na noite maringaense. Para controlar as provações em meio ao público, as forças de Aline vêm do esporte. “Este ano quero ver se tiro minha faixa preta no karatê. Já joguei futsal, basquete e nadei. A competição esportiva ajuda a aprender lidar com a plateia”, diz.

Hoje, no Barracão, ao lado da banda formada especialmente para o projeto (Ronaldo Gravino no teclado e violão, Walter Batera na bateria, Luciano Blues nos solos de guitarra e na gaita, Ribeiro no contrabaixo e Luane Pedroso na percussão), Aline Luz pegará em seu violão e talvez se lembrará de muita coisa vivida desde que escreveu a sua primeira canção. Nada em vão, a estrada só está começando para uma jovem que já começa a ficar atenta aos editais do Convite à Música e da Virada Cultural. “Quero que a minha música tenha o poder de inspirar as pessoas e que as faça refletir, como qualquer tipo de arte.”

*Reportagem publicada sexta-feira (29) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Os insetos também amam

PREMIADO. “O Malefício da Mariposa”, montagem da Ave Lola Espaço de Criação: insetos, amor, atores e bonecos. —FOTO: JOSÉ TEZZA

PREMIADO. “O Malefício da Mariposa”, montagem da Ave Lola Espaço de Criação: insetos, amor, atores e bonecos. —FOTO: JOSÉ TEZZA

Por Wilame Prado

l “O Malefício da Mariposa”, espetáculo curitibano premiado no Gralha Azul, estreia hoje na cidade

l Peça de García Lorca, em montagem da Ave Lola, fala das agruras do amor humano por meio da fábula

Não é fácil explicar o amor. Ainda mais quando se trata de um amor impossível. Para a tarefa, o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca usou, na década de 1920, a poesia e a fábula na peça “O Malefício da Mariposa”, tragicomédia que se apropria do universo de insetos para contar uma história sobre as dificuldades que os humanos têm em variadas manifestações amorosas.

O espetáculo, que ganhou montagem da curitibana Ave Lola Espaço de Criação, chega pela primeira vez a Maringá hoje, em apresentação única e com entrada franca no Teatro Barracão, às 20h30. O programa é uma atração do Convite ao Teatro, que distribui os ingressos na bilheteria do local meia hora antes do início.

A depender do currículo do espetáculo, recomenda-se chegar cedo para garantir lugar no Barracão – teatro de pequeno porte e que tem capacidade para pouco mais de 200 pessoas sentadas. É que “O Malefício da Mariposa”, espetáculo de estreia da Ave Lola e apresentado pela primeira vez há dois anos no Festival de Teatro de Curitiba, foi o grande vencedor do Troféu Gralha Azul 2012 com sete indicações e cinco troféus.

Revelaram-se como pontos positivos e devidamente premiados do espetáculo a direção, as atuações e a sonoplastia. Mas era grande o desafio com a montagem – Lorca teve um retumbante fracasso com a peça, que ficou apenas dois dias em cartaz.

A Ave Lola, mostrando no palco um trabalho elogiável de criação coletiva com três atores tendo de manejar bonecos-personagens, conseguiu fugir do caricaturismo ao encenar algo que, à primeira e errônea vista, parece se tratar de fábula da Disney e seus sentimentalismos: uma espécie de vida de insetos existencialistas. Nada disso, garante a diretora Ana Rosa Tezza, que também dá vida à Dr. Nigromântica – personagem que traça com a Dona Curiana (Janine de Campos) um eterno dilema: “Vale a pena ser poeta?”

No palco, além delas, Curianito (Val Salles) precisa encarar o drama e os perigos de se viver uma paixão proibida por uma mariposa. Isso tudo em figurinos e iluminação que, mesclando atores atuando e bonecos ganhando vida, proporcionam, segundo Ana Rosa, um espetáculo tocante, para um público de todas as idades. “Lorca dizia se tratar de uma ‘comedia rota’, uma comédia quebrada, uma tragédia, na verdade.O texto fala sobre a paixão e a busca do impossível. Pensar que insetos amam foi a metáfora encontrada para se distanciar e assim poder falar sobre o amor utópico, sobre o amor das pessoas também pela arte, pela poesia, pelo inalcançável”, diz a diretora.

AVE LOLA COLECIONA CONQUISTAS
Com apenas dois anos e meio de fundação, a Ave Lola Espaço de Criação já coleciona algumas conquistas que, segundo a diretora e atriz Ana Rosa Tezza, refletem o profissionalismo e a entrega para com a arte de todos os envolvidos na companhia.

“O Malefício da Mariposa”, espetáculo de estreia da Ave Lola e que chega pela primeira vez a Maringá hoje, foi indicado a sete categorias no Troféu Gralha Azul 2012 (premiação dos melhores do teatro paranaense), sendo premiado como Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Sonoplastia.

Situada no bairro São Francisco, em Curitiba, a companhia conta atualmente com 15 profissionais da área do teatro, música e audiovisual. O espaço, diz Ana Rosa, além de servir para os ensaios e estudos multidisciplinares pensando nas montagens cênicas, comporta também um pequeno teatro com capacidade para um público de 40 pessoas. Na semana passada, a Ave Lola encerrou no local a temporada de “Tchekhov”, segundo espetáculo da companhia inspirado no conto “Aniuta” do escritor russo.

GRÁTIS
O MALEFÍCIO DA MARIPOSA
Ave Lola Espaço de Criação
Direção: Ana Rosa Tezza
Dir. de Arte: Cristine Conde
Classificação: Livre
Duração: 70 minutos
Quando: sexta-feira, às 20h30
Onde: Teatro Barracão
Entrada franca

*Reportagem publicada quarta-feira (30) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Uma criança condenada e abandonada

MAU CAMINHO. Atores Felipe Fabri e Thayse Mochi em foto de divulgação do espetáculo “Little People”: abandono e prostituição infantil, temas urgentes e atuais. —FOTO: GIOVANA LAGO

MAU CAMINHO. Atores Felipe Fabri e Thayse Mochi em foto de divulgação do espetáculo “Little People”: abandono e prostituição infantil, temas urgentes e atuais. —FOTO: GIOVANA LAGO

Por Wilame Prado

Uma propriedade malcuidada pode ser invadida por cupins, rachaduras e vazamentos. Triste é quando a propriedade somos nós, assim como em “Essa Propriedade Está Condenada”, peça escrita pelo dramaturgo norte-americano Tennessee Williams (1911-1983) e que inspirou “Little People”, espetáculo da recém-formada companhia maringaense Coletivo de Fingidores que estreia hoje, com entrada franca, no Teatro Barracão, pelo Convite ao Teatro. A direção é de Marcio Alex Pereira.

Em cena, a jovem atriz Thayse Mochi (de “Cidade Menina”) é Willie, garota de 13 anos abandonada pelos pais e que tem como referência de vida as memórias de sua bela irmã Alva, já morta e que se prostituía para sobreviver.

Isso tudo em uma casa de pensão falida, a propriedade literalmente condenada pela prefeitura local após quebra da bolsa de valores em 1929, falência da ferrovia que passava por perto e abandono total dos moradores daquele vilarejo.

Como “herança” da irmã, o corpo da pequena também serve de mercadoria aos homens e tudo isso ela vai contar, descompromissadamente, para o também jovem Tom (Felipe Fabri, da Cia Palco), em uma conversação que traz à tona temas como abandono e prostituição infantil, tão urgentes e atuais, mesmo tendo sido escritos na década de 1970 pelo consagrado dramaturgo norte-americano. Apenas os dois atores contracenando sobre um trilho da ferrovia desabitada e por onde os trens já não passam mais.

Willie, afinal, é a “little people”, a “propriedade condenada” em sua essência, infeliz e ingenuamente, como acontece com crianças que ficam à margem, abandonadas, de banquete, e que Tennessee Williams fazia questão de focar o olhar pretendendo, talvez, criticar a humanidade que, de modo geral, tem suas podridões. Para os integrantes do Coletivo de Fingidores, um tema social que merece sempre ser retratado no teatro, mas com a preocupação de não aplicar julgamentos precipitados nem falsos moralismos.

“Eu acredito na função social da arte. Uma das preocupações do grupo, na concepção da peça, era a de não transformar a performance dos atores em moralismos. Não queremos julgar aquele ou outro tipo de trabalho, como é a prostituição, e sim tentar ver de que forma as pessoas chegam a tal ponto, ver como uma criança chega ao ponto de ser abandonada, de se prostituir”, afirma Pereira, conhecido principalmente por ser um dos organizadores da Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá e que também é ator e professor de teatro na cidade.

Fingidores e estudiosos
O Coletivo de Fingidores é uma espécie de extensão do Teatro & Ponto Produções Artísticas, companhia que responderá judicialmente em futuros editais pelo grupo.

Marcio Alex Pereira revela que a intenção dos atores, produtores e diretores envolvidos no coletivo recém-formado é estudar teatro e, após dedicação na teoria, também aprender muita coisa na prática, montando e apresentando espetáculos.

“Little People” contou com pré-estreia em Campo Mourão no ano passado, na grade de extensão da 3º Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá. Após a estreia de hoje no Teatro Barracão, a ideia é excursionar por cidades da região, como Paranavaí, Londrina e Marialva.

Pereira revela que o projeto envolvendo os estudos da obra de Tennessee Williams está só começando. Finalizando a turnê do espetáculo inspirado no texto curto “Essa Propriedade Está Condenada”, o coletivo – que hoje conta com quase dez pessoas – vai se embrenhar nas obras “Fala Comigo Doce Como a Chuva” e “O Matadouro Municipal”, ambas do mesmo dramaturgo estadunidense.

LITTLE PEOPLE
COLETIVO DE FINGIDORES
Quando: hoje
Horário: 20h30
Onde: Teatro Barracão
Duração: 40 minutos
Classificação: 16 anos
Entrada franca
Texto: Tennessee Williams
Direção: Marcio Alex Pereira
Elenco: Thayse Mochi e Felipe Fabri

*Reportagem publicada nesta sexta-feira (14) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Ótimo espetáculo, ‘Sem Conserto’ é hoje e de graça

Com atuação impecável, a atriz Lorena Lobato fez a plateia rir e chorar no espetáculo “Sem Conserto”, apresentado ontem e que terá dobradinha a partir das 20h30 desta sexta-feira (10) no Teatro Barracão, pela 2ª Mostra de Teatro Contemporâneo em Maringá e que entra na programação do Convite ao Teatro. A entrada é franca.

Claro que, para isso, a atriz teve o tempo todo ao seu lado os encantamentos que só um piano bem tocado, diga-se de passagem, pelo músico Daniel Grajew é capaz de proporcionar, transformando o espetáculo em um chamado teatro-concerto ao recitar as principais obras da música erudita. “Sem Conserto” é curto e direto como um conto. A diferença é que este conto já vem com brilhante trilha sonora (atrapalhada apenas pelo barulho de uma feira sendo desmontada bem ao lado de um teatro sem qualquer isolamento acústico).

*Confira a crítica completa do espetáculo “Sem Conserto” na edição de domingo do D+, do Diário de Maringá. Espetáculo recomendadíssimo! Aproveite e dê uma chegada hoje lá no Teatro Barracão para ver

Lorena Lobato visitou a redação antes do espetáculo (foto de Rafael Silva)

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