Teatro Calil Haddad



Plantações sonoras de Miguel Proença

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Por Wilame Prado

Mais do que executar disputados recitais, o renomado pianista Miguel Proença, 76 anos, hoje tem como principal meta plantar sementes. É assim que ele metaforiza o trabalho que realiza com o projeto Piano Brasil, que teve na terça-feira, no Teatro Calil Haddad, a abertura de sua sétima edição, patrocinada pelo BNDES e Caixa Econômica Federal e que faz parte da programação da 2ª Semana Cultural de Maringá.

Por telefone, Proença revela ter ficado encantado com a cidade. “Organizada, limpa e com moradores que a amam. Quase não dá para ver o sol por causa da imensidão do verde”, diz ele, que espera colher também por aqui os bons frutos que só a música pode oferecer ao ser humano, de qualquer idade.

As crianças foram seu primeiro “alvo”. Quase 500 alunos da rede de ensino público tiveram o privilégio de receber das mãos, da voz e do piano do gaúcho radicado no Rio de Janeiro uma aula-show baseada em cartilha escrita pelo maestro Ricardo Prado e belamente ilustrada por Bruna Assis Brasil.

Na tarde de ontem, foi a vez dos estudantes e professores da área de música conhecerem o pianista e ainda participarem de uma master class, também com entrada franca.

Mas o ato principal da vinda de Proença a Maringá está marcado para hoje, às 20h30, também no Calil. É lá que ele executará recital com programa escolhido a dedo. “O programa, eu escolho as que eu toco bem; bom, pelo menos as que eu acho que faço bem. Toco aquilo que gosto, aquilo que consigo comunicar melhor com o público, aquilo que também faz me sentir melhor, com mais confiança tecnicamente e sonoramente.”

Com a proposta nacionalista do projeto – feita pelo pianista que executou toda a famosa coletânea “Piano Brasileiro” (2005), considerada pela Unesco como Patrimônio da Música Brasileira –, Proença não deixa de tocar no recital algo de Alberto Nepomuceno e Heitor Villa-Lobos. Mas diz ser um confesso apreciador dos românticos. Por isso, há também na apresentação interpretações de peças assinadas por Frédéric Chopin, além de canções de Gluck-Kempff, Debussy e Nazareth.

Com o Piano Brasil, diz ele, a intenção é pelo menos uma aproximação do que ocorre, por exemplo, na Alemanha, país onde morou por muito tempo e que a educação musical é uma realidade. “Não existe uma tradição de ensinar música clássica, de se ouvir música clássica, está tudo muito voltado para a televisão e o computador. É um alívio para os pais deixarem as crianças brincando com os tablets. Eu carrego pedra com esse projeto, mas não desisto. Sonho com o dia em que ele se oficialize, que se institucionalize, que eu possa ir para 40 e não somente para 15 cidades por ano. Mas para isso dependo do apoio político.”

Educação da alma
Tal qual Villa-Lobos – na opinião do pianista, o compositor mais importante da história da música brasileira e que percorreu Brasil afora levando a sua música durante oito anos –, Proença (com o projeto, já chegou a quase 150 municípios), quer levar música para o máximo de gente possível, sonhando com fartas colheitas musicais, que, para ele, consiste em algo aparentemente simples, mas ainda muito distante da realidade brasileira: o ensino da audição para a música de qualidade.

“Quem já gosta de música clássica, aprecia o projeto. Quem descobre a música clássica depois do projeto, tende a agradecer. Interpretação, pesquisa e imaginação sonora é educação para a alma, aprender a ouvir música é poder sentir o prazer de uma manifestação fantástica, que emociona, que transporta a outras atmosferas, que tira a pessoa dos problemas mais sérios, e não como fuga, não como o álcool ou as drogas, mas como uma forma de cultivar a sensibilidade”, reflete o pianista.

Sem roupa e sem um Steinway
O pianista Miguel Proença chegou ontem a Maringá considerando tudo muito bonito, tudo muito charmoso, mas não poupou algumas críticas por dois motivos: o extravio da mala no aeroporto – que o obrigaria a comprar roupas novas para executar as atividades durante os três dias de estada na cidade – e o mal conservado piano Essenfelder do Teatro Calil Haddad.

“Ter um enorme e bonito teatro como esse sem um bom e competente piano é como investir numa mansão sem colocar móveis dentro da casa. O piano Essenfelder, no Calil, ideal para apresentação de concertos, está bastante usado e com perda de qualidade sonora. Mas faço essa ressalva oferecendo o meu intermédio junto aos órgãos competentes caso queiram investir em um bom piano de nível internacional Steinway, vindo diretamente de Hamburgo, na Alemanha”, diz Proença, que, não sem méritos, hoje figura no “Wall of Fame” da Steinway&Sons junto aos maiores pianistas de todos os tempos.

Ironicamente , se as atividades do projeto Piano Brasil tivessem sido marcadas no Auditório Luzamor – mais acanhado, com capacidade para 400 pessoas sentadas, contra as mais de 700 do Calil -, o pianista teria ao seu dispor um legítimo piano Steinway, sempre requisitado por músicos que se apresentam na casa.

Pianos à parte, o intérprete se recorda com saudades do projeto que fez com Bibi Ferreira, os dois interpretando bons tangos, para afirmar que pianista clássico também costuma gostar de música popular, mas desde que tenha qualidade. “Gosto e toco música popular brasileira, a verdadeira, aquela feita com melodia, ritmo e inspiração dos nossos grandes compositores brasileiros. As canções eternas de Tom Jobim e das grandes vozes brasileiras. Sertanejo eu gosto também, do sertanejo bonito, vivo, aquilo que por tanto lutou a Inezita Barroso e outros nomes. Agora, o funk eu detesto. E o que é aquele Rock in Rio? Um bando de cabeludo escutando e fazendo barulho.”


RECITAL DE PIANO
COM MIGUEL PROENÇA
Quando: hoje
Onde: Teatro Calil Haddad
Horário: 20h30
Entrada franca

*Reportagem publicada quarta-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Quintais inabitados

Uma das fotografias de Marcos Trindade na exposição em cartaz no Calil: criança triste sente falta dos quintais

Uma das fotografias de Marcos Trindade na exposição em cartaz no Calil: criança triste sente falta dos quintais

Por Wilame Prado

Uma tarde chuvosa dentro da casa da mãe foi suficiente para o ator Marcos Trindade, 44, perceber o quanto é triste uma tarde chuvosa dentro de casa. Então, por que as crianças não vão mais tomar banho de chuva, pisar na terra molhada ou brincar com bolinhas de gude lá fora? Porque, em seu ponto de vista (corretíssimo), os quintais estão cada vez mais acinzentados pelo concreto, cercado pelos muros altos e muitos servindo apenas como depósito de coisas descartadas.

São assim, um tanto tristes mas fragorosamente saudosistas, as 20 fotografias que compõem a exposição “Quintal de Concreto”, aberta esta semana por Trindade no térreo do Teatro Calil Haddad, que, longe do teatro, permite-se ousar em outras artes, como a fotografia, uma de suas paixões. A exposição, que fica aberta a visitações gratuitas até 13 de dezembro, faz parte do projeto Convite às Artes Visuais, da Secretaria Municipal de Cultura.

Em sua maioria feitas em 2012 no quintal da casa da mãe, no Conjunto Residencial Parigot de Souza, as fotografias de Trindade foram inspiradas no tédio das crianças, que não podiam brincar lá fora, e também dos mais velhos, que hoje, nos quintais, já não veem a alegria das molecagens, tampouco têm o sabor das descompromissadas conversas entre vizinhos, amigos e parentes, todos sentados em confortáveis cadeiras de varanda.

Não há nada disso em “Quintal de Concreto”. Há, sim, o olhar para o vazio da senhora de idade, o desejo de mais diversão dos pequenos e os inevitáveis pregadores despojados nos varais, além das clássicas casinhas de cachorro, tábuas largadas num canto, ferramentas jogadas n’outro, a velha bicicleta (o pneu, murcho) encostada no muro.

Explorando um cenário urbano, cotidiano, mais cinza, menos colorido, Trindade mostra o seu trabalho com a fotografia que, mais que qualquer apuro técnico (ainda assim, vê-se nas fotos jogo de profundidade e trabalhos de campo e contracampo), destaca-se mesmo pela proposta temática. Por telefone, ele, que sequer tem quintal em sua residência, no Residencial Aeroporto, admite um lado pessimista na exposição, mas também saudosista. A saudade, diz ele, é de um tempo em que os quintais das casas de madeira eram sinônimo de diversão.

“Em meu tempo, brincávamos em quintais com cercas de balaústre. Rememorei esse tempo, investindo nas molduras rústicas das fotos, com esse tipo de ripa que, inclusive, era utilizada como mata-junta na construção das casas de madeira”, explica.

E finaliza, propondo uma reflexão: “Quem é que frequenta os quintais hoje? Praticamente, ninguém. Olhei para os quintais ao redor da casa da minha mãe, e, praticamente, todos serviam como depósito de coisas. Olhei para a minha sobrinha – que olhava para fora sem poder sair de casa – e senti que aquele pequeno quintal todo de concreto isolava a menina.”

VEJA
QUINTAL DE CONCRETO
Fotografias de
Marcos Trindade
Local: Museu de História e Artes Hélenton Borba Côrtes,
no Teatro Calil Haddad
Exposição prossegue até
13 de dezembro
Entrada gratuita

*Reportagem publicada quinta-feira (20) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Incansável Hermeto Pascoal

hermeto

Música ruim é igual ebola, é a ebola da alma. E as pessoas estão cuidando do corpo e se esquecendo da alma – Hermeto Pascoal

Por Wilame Prado

“…sua obra é um legado antológico de criações sonoras constituído de centenas de peças musicais – muitas tornadas clássicas como “O Ovo”, “Bebê”, “Chorinho pra Ele”, “Forró Brasil”, “Montreux”, entre outras, que podem ser ouvidas em diferentes formações, gravadas por seus próprios grupos e por inúmeros intérpretes de diversos países do mundo, que o compositor e multi-instrumentista, para fugir do lugar comum dos rótulos e da música convencional impostos pela indústria cultural, emprega a expressão ‘música universal’.”

Acima, uma breve sinopse da grandeza musical representada pelo multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal, 78, contida no livro “Hermeto Pascoal – musicalmente falando”, lançado no ano passado pelo maringaense Paulo Petrini. Considerado gênio da música, autodidata que tira sonoridade musical de qualquer instrumento, coisa, natureza e pessoas, Hermeto faz amanhã, às 20h30 no Teatro Calil Haddad, o seu segundo show na cidade. O primeiro, há 12 anos, ainda provoca saudades nos amantes de sua música universal, repleta de sonoridades originais, improvisações e significados.

O jazz de Hermeto, que emociona, alegra e ilumina, é propositalmente único. Em entrevista recente por telefone, o músico, que hoje mora em Curitiba com a mulher – a cantora e instrumentista Aline Morena – afirma que gosta de subir no palco para nunca mais parar de tocar. “Cada show é um show, é algo diferente do que fazemos em estúdio”, diz .

As apresentações de Hermeto & Grupo chegam a durar mais de duas horas, de improvisação e sonoridade exemplar. Música feita com alma, característica que o gênio fez questão de ensinar para o seu inseparável grupo. Hermeto vem acompanhado de Itiberê Zwarg (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Fábio Pascoal (percussão), Vinicius Dorin (saxes e flautas), André Marques (piano) e Aline Morena (voz e viola caipira).

O DIÁRIO Como consegue enxergar tamanha beleza e som em tudo aquilo que faz?
HERMETO PASCOAL O segredo é o interior da gente, não premeditar e não querer adivinhar o que o público vai gostar. Tentar isso é besteira. Faça o que gosta, e verá que, ao mesmo tempo, o público também dará uma contribuição tão linda que as pessoas parecem mesmo compositores. O sentir vem na frente do saber. O público não vai saber que tom, que música, que ritmo, mas vai criar também.

E as composições escritas em materiais inusitados, como em papel higiênico?
No papel higiênico dá muito trabalho. Mas tem de tudo aqui. Em guardanapo, bolsa de supermercado e até em meus chapéus panamás. Quando vem aquela vontade inesperada, nem eles se salvam. Se chego no restaurante e acho um guardanapo bonito, escrevo música nele. Às vezes o gerente não deixa eu levar o guardanapo. Mas sempre estou com minha bolsa grande, ponho dentro. Passo depois avisando e todo mundo dá risada. Um dia farei uma exposição com todos esses objetos onde escrevo músicas.

O senhor liberou todos os direitos autorais de suas músicas. Já não precisa mais de dinheiro?
Eu gosto mais da música que de dinheiro. Dinheiro, preciso ganhar só para ter as minhas coisas. Rescindi contratos com gravadoras, não ganhava nem metade com isso, e hoje, qualquer um que quiser gravar uma música minha, pode gravar. Tantos músicos que tocam bem e também não ficam rico, mas eu sou mais irrequieto, faço 365 músicas por ano. Vejo músicos aqui de Curitiba que, com 60 anos, já estão vendendo instrumentos e se aposentando. Eu me aposento só quando o meu corpo não puder mais. Estou completando seis mil músicas no papel, fora as músicas exóticas, fora do papel. E meu sonho é pegar umas cinco mil delas e colocar cada uma num envelope, alugar um helicóptero e jogá-las para o povo de lá de cima.

Qual música mais gosta?
Eu gosto daquela que vem na minha cabeça. Há muitos músicos bons, o Egberto (Gismonti) mesmo, e uma turma nova, como o Guinga.

Mas pouco tocou ao lado do Egberto, né? Além de uma apresentação que fizeram em Berlim, se apresentaram outras vezes juntos?
Uma vez, tocamos eu, ele e (Naná) Vasconcellos, lá em Berlim, verdade. Mas eu tenho minhas formações, tenho o meu pessoal me esperando para tocar, e o Egberto toca com outros músicos também, ele viaja para Europa só com o violão, chega lá e toca com um ou outro.

Conhece a versão “Chorinho pra ele” da cantora portuguesa Maria Mendes?
Não me lembro, tem o clipe na internet, né? Vou ver. Mas ela canta bem. O problema do “Chorinho pra ele” é cantar a segunda parte. Um dia o letrista Silvio César fez letra, mas só para a primeira parte. Interpretar é quase como compor uma música.

É verdade que cobra só R$ 30 mil de cachê, um décimo do que pedem muitos nomes do chamado “sertanejo universitário”? Aliás, o que pensa dessa música?
O meu cachê? Nem isso. E outra coisa: estão botando uma onda de aumentar os impostos, se eu ganho R$ 15 mil num show, muito vai para o imposto e a metade sempre deixo com o grupo. Sobre a música sertaneja, se eu tiver num restaurante e tocar, eu saio. É negócio comercial, eles criam tudo. Mas quando falo isso, tenho o maior cuidado, tem muitas pessoas que eu cumprimento, abraço ela, mas não gosto das músicas que elas fazem. Não é nada importante, são só palavras soltas, só falam em fumo, em bebida, brigas. Música ruim é igual ebola, é a ebola da alma. E as pessoas estão cuidando do corpo e se esquecendo da alma, não recebem nenhuma energia. Música ruim atrai a realidade ruim.

*Reportagem publicada neste sábado (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Gênio Hermeto Pascoal domingo aqui

Hermeto Pascoal: músico mora em Curitiba há onze anos, mas ainda acha estranho o pessoal não dar 'bom dia'

Hermeto Pascoal: músico mora em Curitiba há onze anos, mas ainda acha estranho o pessoal não dar ‘bom dia’

Por Wilame Prado

O compositor e multi-instrumentista alagoano Hermeto Paschoal, 78 anos, está mais perto de Maringá do que muitos imaginam. Morador de Curitiba há onze anos, conheceu Aline Morena (sua mulher) em Londrina e foi em um hotel maringaense, antes de seu único show por aqui em 2002, que o gênio convidou a cantora a fazer parte de seu grupo musical. “Aline veio até meu quarto mostrar como ela cantava. Pensei que fosse uma outra cantora, uma ruinzinha, por isso disse que não havia instrumento nenhum por perto. Mas quando ela comentou que já havia dado uma canja comigo, eu me recordei e disse: ‘Deve haver uma escaleta aqui embaixo da cama'”, diz ele por telefone, em entrevista concedida de sua casa, no bairro Santa Felicidade, onde mora com Aline.

Hermeto Paschoal e Grupo se apresentam em Maringá no domingo, 26 de outubro, às 20h30, no Teatro Calil Haddad. Imperdível show, que tende a durar duas horas ou mais. Hermeto só para de tocar se os organizadores pedirem, e o pedido deve ser feito antes de o show começar. A vinda do músico brasileiro mundialmente conhecido é uma realização do Cottonet-Clube com patrocínio de várias empresas da cidade. Simpático ao telefone, já foi logo dizendo que as expectativas é das melhores para o show aqui na cidade e que sente saudades daqui. “O que gravamos em estúdio é diferente do que tocamos ao vivo. Não digo que o show é 100% de improvisação, mas todos os músicos têm liberdade e competência para serem eles próprios. Fico feliz porque todos eles têm seus próprios trabalhos. Considero-me um pai dessa família, mas um pai não gosta de ser imitado. Quando vejo alguém me imitando, digo assim: ‘você existe, Deus não fez nada igual, não confunda semelhança com imitação'”, conta Hermeto, que vem acompanhado de Itiberê Zwarg (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Fábio Pascoal (percussão), Vinicius Dorin (saxes e flautas), André Marques (piano) e Aline Morena (voz e viola caipira).

Conversar com Hermeto Pascoal é ter a chance de entender um pouco mais sobre a simplicidade da vida e de ficar ainda mais perplexo com o tamanho da humildade que há em um dos maiores instrumentistas e compositores da história da música brasileira. É difícil explicar como o gênio “comete” as suas genialidades. No caso dele – que já tocou com Miles Davis e que já foi convidado para compor e tocar com John Lennon, Tom Jobim, Taiguara,Elis Regina, Fagner e Roberto Carlos – chega-se à conclusão que gênio nasce gênio; no caso dele, em Olho d´Água das Flores, Alagoas.

Ele comenta, sério, que os primeiros sons – já no nascimento, em 22 de junho de 1936 – foram predominantes para a habilidade que tem de “ver” música em tudo, desde os incontáveis tipos de instrumentos que toca, até objetos comuns do cotidiano, como caixa de fósforo, bandejas, chaleira etc. “Lembro do meu nascimento, do som da Maria Mãe – parteira que morreu aos 145 anos e que, à época, foi considerada a pessoa mais velha do mundo – dando um tapinha de leve em meu bumbum. Depois me lembro da imensidão do mato, todos os bichos, a natureza e de como tudo aquilo era cercado por sons, por música. Essa inocência na infância, em Lagoa da Canoa (AL), foi essencial.”

Depois, aos 14, conheceu a cidade grande. Recife. Por lá, Sivuca foi o seu primeiro padrinho. “Sivuca, maravilhoso, amigão de todos os tempos, meu irmão de som eterno. Depois que comecei a tocar com ele, não parei mais de fazer música, amar a música e, através da música, amar tudo o que é lindo”, diz. A determinação de Hermeto, claro, deu-se também pela coragem que ele teve em se distanciar da família para, ainda adolescente, viver de música. Ele sabia, desde muito pequeno, que havia nascido para as canções, que tanto propiciam sensações boas aos humanos e também para os bichos. “Ainda no mato, percebi que já tinha um público para a minha música. Os pássaros se aproximavam, o cavalo parava de trotar, até os sapinhos se aproximavam de mim para me ouvirem tocar. Gansos também chegavam, e os peixes, quando fazia meu som com a água da lagoa, vinham rapidamente para perto”, rememora.

E hoje, longe do silêncio, Hermeto também não reclama, enxerga música em tudo. “Considero o barulho da cidade como música. Não tenho medo do trânsito, para mim é como se fosse uma boiada. E consigo fazer música com outros barulhos acontecendo ao meu redor, até com o rádio ligado, mas hoje precisa ser em rádio de notícia porque só tem música ruim. Tenho o maior respeito pelas pessoas, mas não gosto da música que fazem. Hoje, o pessoal está fazendo só jingles, e dos ruins, é comercial, apelativo, ainda bem que não dura. Esse negócio de rap mesmo, isso tudo é embolada do Nordeste que o americano copiou dando 30 dólares para os caras entregarem o ouro.”

PARA OUVIR
HERMETO PASCOAL
E GRUPO
Quando: 26 de outubro (domingo)
Horário: 20h30
Onde: Teatro Calil Haddad
Preço: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia)
À venda na Genko Mix, do Maringá Park Shopping

*Reportagem publicada em 9 de outubro no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Fragmentos de Monteiro

NA MADEIRA. Obra "Terceiro Membro", de Marcelo Monteiro: exposição Fragmentos, com 12 esculturas do artista, fica aberta no Calil até 5 de outubro . —FOTO: RICARDO LOPES

Obra “Terceiro Membro”, de Marcelo Monteiro: exposição Fragmentos, com 12 esculturas do artista, fica aberta no Calil até 5 de outubro . —FOTO: RICARDO LOPES

Por Wilame Prado

Na exposição Fragmentos, que fica aberta até 5 de outubro no Museu de História e Arte Héleton Borba Cortes, no térreo do Teatro Calil Haddad, o artista Marcelo Monteiro, 33, faz uma ode ao ser humano em 12 obras esculpidas na madeira. Um tanto figurativa no primeiro plano, os visitantes veem na exposição traços de rostos humanos, mãos, braços, corpos e uma curiosa mala – na obra “Mala: objeto de transportar referência” – que parece carregar vida humana dentro dela. As formas do ser humano estão ali, na madeira, mas estão incompletas, propositalmente desfalcadas, numa clara demonstração de sensibilidade, de ausência, de fraqueza.

O figurado perde força quando se pensa na significação da escultura. São mesmo fragmentos do homem, da mulher, do ser humano e suas tantas formas: formas de rosto, mãos, corpos. Nesse quesito, o artista – que mora e mantém um ateliê no distrito de Iguatemi – dá uma chance de análise e criticidade ao observador. Afinal, o que pode representar uma escultura com apenas metade de um rosto e, na outra metade, um buraco transpassado na madeira, assim como na obra “Identidade”? A ambiguidade humana entra em cena e enfraquece a forma de um rosto supostamente perfeito. A velha história do jargão: “quem vê cara, não vê coração”. Ou mais: quem vê só cara, não vê coração, tampouco essência. Vê-se, e olhe lá, somente fragmentos.

As demais obras, muito bem espalhadas pelo hall reformado do museu no Calil e devida e individualmente iluminadas, mostram, como um todo, aquilo que foi alertado pelo crítico de arte Oscar D´Ambrósio e replicado no texto de abertura da exposição: “A escultura tem em si mesma um grande desafio para o artista plástico. Ela lida com a tridimensionalidade, ou seja, é preciso pensar nas peças não apenas para serem vistas de uma posição frontal, mas em todo seu potencial”, considera o crítico.

Monteiro, em suas doze obras em madeira, soube trabalhar com a tridimensionalidade citada por D´Ambrósio. Até porque – e isso a foto do jornal não pode demonstrar, só quem está in loco pode sentir – , as esculturas possuem um atípico poder de sensualidade e atração: dá vontade de tocar naqueles pedaços de madeira que um dia foram troncos de árvores condenados e que, após o trato do escultor, virou obra de arte.

Recomenda-se também, na exposição, um duplo passeio: veja bem de perto primeiro e, depois, afaste-se alguns metros da obra para visualizá-las: e então perceberá que as obras de Monteiro são mutáveis e cheias de movimento, mesmo em se tratando de duras madeiras.

PARA VER
FRAGMENTOS
Exposição com 12 esculturas de Marcelo Monteiro
Onde: Térreo do Calil Haddad
Quando: de segunda a sexta, das 8h às 17h, até 5/10
Entrada franca

*Texto publicado nesta terça-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Jorge Vercillo entre nós

NO CALIL. Jorge Vercillo: músico e compositor carioca finalmente faz shows no Paraná; amanhã, às 20h, tem horário marcado no Teatro Calil Haddad. —FOTO: DIVULGAÇÃO

NO CALIL. Jorge Vercillo: músico e compositor carioca finalmente faz shows no Paraná; amanhã, às 20h, tem horário marcado no Teatro Calil Haddad. —FOTO: DIVULGAÇÃO

Por Wilame Prado

Músico carioca faz bate-papo, sessão de autógrafo e show na cidade entre hoje e amanhã

Compositor, que não gosta de ser chamado de romântico, comemora 20 anos de carreira

Não se surpreenda se, entre hoje e amanhã, estiver fazendo a sua caminhada no Parque do Ingá e se deparar com Jorge Vercillo em pessoa, buscando um contato maior com a riqueza arbórea maringaense.

O músico e compositor carioca de 45 anos, que faz show amanhã no Teatro Calil Haddad em comemoração aos 20 anos de carreira, disse, em entrevista por telefone ao Diário, fazer questão de, sempre que possível, aproximar-se da natureza nas cidades por onde passa, praticando ecoturismo. “Quando passo pelas cidades e sei que tenho um ‘day off’, procuro visitar um lugar bonito, gosto de andar, conhecer bosques, lagoas. Quando estou com meus filhos, gostamos de subir na árvore para conversar. A árvore nos passa a energia telúrica”, conta.

Ao marcar três compromissos de uma só vez na cidade – além do show de amanhã, ele faz hoje um bate-papo e sessão de autógrafos – Vercillo tira o atraso na região Sul, onde, confessa, toca muito pouco. “Sempre quisemos tocar no Sul, mas não havia muitas propostas de contratantes. Então, decidi, em 2014, por minha conta, que faria mais shows por aqui. Chegaram a me perguntar uma vez se eu tinha ódio do Paraná. E não é nada disso”, afirmou o músico, diretamente de um hotel curitibano, onde participava de campanhas de divulgação para o show do próximo sábado, na capital.

Na entrevista, Jorge Vercillo surpreende: renega o carimbo de cantor romântico, diz que as comparações com Djavan já deveriam ter ficado para trás e afirma que shows apresentados em teatro são os seus preferidos.

O DIÁRIO Qual a diferença de subir ao palco pela primeira vez de um show comemorativo dos 20 anos de carreira?
JORGE VERCILLO
Com certeza a gente fica mais à vontade. O tempo tem sido bem generoso comigo, tenho uma saúde de garoto, jogo bola, ando de bicicleta com meus filhos, não me imaginava, aos 45, tendo essa energia de garoto. Isso se reflete no palco, e o público gosta da intensidade e da entrega nos shows. Dia desses, num show em SP, num momento ‘banquinho e violão’, fechei os olhos para me lembrar de uma música lado B do meu repertório e, quando notei, estava tocando como se estivesse no meu quarto, esqueci que estava no palco, estava intenso, e isso é graças ao tempo.

Fará um show mais voz e violão em Maringá? E o setlist?
Não. Somos um quarteto, o que permite, mesmo assim, mostrar mais o meu trabalho no violão e na voz. Gosto muito quando o meu violão dialoga com a percuteria (um híbrido entre bateria e percussão), que fica a cargo do grande baterista Cláudio Infante. No baixo, toca André Leiva, nosso diretor musical; Misael da Hora, filho do Rildo Hora, assume os teclados. Sobre o setlist, vasculhei meu balaio e temos apresentado algo mais abrangente, e tocamos “Encontro das Águas”, “Ela Une Todas as Coisas”, “Homem-Aranha”,e outras mais ritmadas, como “Devaneio” e “Melhor Lugar”. É um show com sucessos, mas com um lado conceitual e hermético, a exemplo da música antiga “Avesso”, que poucos conhecem e que o grupo GLS abraçou pois se reconhece na história.

Gosta dos shows em teatros?
Penso que o melhor show que eu posso fazer é dentro de um teatro. Porque as pessoas não estão bebendo nem esperando um tempão para começar. Essa prática de deixar o pessoal consumindo bebidas para um show começar depois da meia-noite passa uma energia que não tem a ver comigo. Meu lance é outro, meu público é família pra caramba. Mas, mesmo no teatro, no meio do show, começo a provocar a plateia, chamo todo mundo lá pra frente, a gente faz uma bagunça boa, mas saudável, aquilo ali vira uma pista de dança.

Quais os diferenciais do disco “Luar de Sol” (2013), que ganhou o prêmio Grammy Latino como “Melhor Álbum de MPB”?
Um trabalho premiado, ou seja, que vende muito pouco ou quase nada. As pessoas estão buscando mais entretenimento do que cultura. É um trabalho mais hermético, em que procuro passar mais conhecimento por meio da música, um conhecimento que veio através da arte. Talvez seja um disco que, de certa maneira, encerra um ciclo que vinha trabalhando no abuso de uma sonoridade mais acústica, evidenciando mais o samba, a MPB, iniciado com “Todos Nós Somos Um”, disco de 2007 que tem a participação de Marcos Valle. Cheguei a gravar músicas com orquestras de corda, cheguei a ter violinistas na banda. Agora, numa tentativa de me aproximar mais do público jovem, tenho mudado um pouco isso, e começo a apostar, já nessa turnê dos 20 anos, num diálogo com o timbre eletrônico, com a coisa dos loops, timbres sintetizados, com mais DJs e teclados.

A comparação com o Djavan ainda o incomoda?
Ficarem batendo nessa tecla, após 20 anos de carreira, é inadequado. Não vou deixar que a minha obra seja influenciada pela opinião dos outros. Até poderia ter fugido musicalmente dessa influência para agradar a crítica, mas preferi manter minha personalidade ainda mais sabendo que tenho influência, sim, de Djavan, como tenho também de Steve Wonder, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Claudio Cartier. Num balanço desses 20 anos de carreira, concluo que sou um artista híbrido e que graças a isso tenho sucesso. Nós já fizemos tudo ou quase tudo nessa terceira dimensão, já não é mais possível haver um pilar de originalidade, quando misturo jazz e música árabe já estou sendo híbrido. Quando os idiotas acham que estou imitando o Djavan, posso dizer que ele é um pilar e que estou sendo eu. Caetano e Gil inauguraram um novo jeito de se fazer música no Brasil, assim como Djavan também.

Tem ideia de quantas composições já fez?
Estou tomando birra de análise quantitativa. Não me lembro quantas músicas fiz, meu público criou um laço com o conjunto da minha obra e isso é mais importante. Mas cito uma música importante para mim: “Face de Narciso”, tema da novela “Flor do Caribe”. Na letra, contesto o mito do amor romântico. Nós mesmos, artistas, vivemos de músicas românticas, vendendo esse sonho da paixão, mas essa letra quebra completamente com isso. Meu trabalho maior é de questionar, de desarrumar e não acomodar. O amor é um ator de consciência maior, que respeita todas as formas de vida. Amor é muito mais abrangente do que ‘beijinho beijinho e tchau tchau’.

Então, não é um romântico que acredita no “final feliz”?
Chegou num ponto importante. Sou muito mais transgressor do que um romântico no sentido que as pessoas esperam. Em meu principal sucesso, que me projetou para o Brasil, quando digo que “nada vai me fazer desistir de amor”, estou falando de todo esse amor maior. Dedico toda a minha arte para o conhecimento extraterrestre, em um recondicionamento de você se ver como um ser humano universal e como parte de um todo, algo que tem a ver com a evolução ética e moral enquanto um ser humano no desenvolvimento do planeta Terra. Eu não gosto quando sou chamado de romântico, dá a impressão de ser algo relacionado à paixão superficial e possessiva, relacionado a coisas que protesto.

ROTEIRO
20 ANOS DE JORGE VERCILLO
Quando: amanhã
Onde: Teatro Calil Haddad
Horário: 20h
Preço R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)
Pontos de venda: Livrarias Curitiba (Maringá Park Shopping e Shopping Catuaí) e aloingressos.com.br

Bate-papo com o músico
Quando: hoje, às 18h, no Calil

Sessão de autógrafos e fotos
Quando: hoje, às 19h30, nas Livrarias Curitiba (Maringá Park Shopping)

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (10) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná
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Felizes e bonitos

NA CIDADE. A Banda Mais Bonita da Cidade: lançamento em Maringá do elogiado “O Mais Feliz da Vida”, segundo disco do grupo. —FOTO: BETO BOLLIGER

NA CIDADE. A Banda Mais Bonita da Cidade: lançamento em Maringá do elogiado “O Mais Feliz da Vida”, segundo disco do grupo. —FOTO: BETO BOLLIGER

Por Wilame Prado

A perceptível evolução d´A Banda Mais Bonita da Cidade com o segundo álbum “O Mais Feliz da Vida”, lançado ano passado, poderá ser conferida ao vivo amanhã em Maringá. A banda curitibana liderada pela cantora paranavaiense Uyara Torrente volta à cidade com o show marcado para as 21h de sábado no Teatro Calil Haddad.

Os quase cinco anos de estrada e a rápida conquista de público após o fenômeno viral da música “Oração” – com suas mais de 13 milhões de visualizações do clipe no Youtube – fizeram bem para Uyara (voz), Vinícius Nisi (teclados), Diego Plaça (baixo), Rodrigo Lemos (guitarras) e Luís Bourscheidt (bateria).

“O Mais Feliz da Vida”, ousado porque se propõe conceitual – a perenidade da vida é posta em prova no movimento das faixas do CD, conceito que tem início na faixa 1, homônima, e término na faixa 11, “Reza Para Um Querubim” – traduz o crescimento musical dos integrantes d´A Banda Mais Bonita da Cidade, grupo cada vez menos “só” um intérprete de bons compositores curitibanos e cada vez mais voz ativa da cena contemporânea da música independente brasileira.

O segundo álbum cheio dos paranaenses – o primeiro, “A Banda Mais Bonita da Cidade” é de 2011; em 2012 lançaram o vinil compacto “Canções que Vão Morrer No Ar” com cinco faixas – está recheado de novidades e características elogiáveis, assim como a curiosa proposta gráfica com a foto da Dona Júlia na capa – uma senhorinha moradora de um asilo em Curitiba – e toda a preocupação sonora na produção assinada pelo tecladista Vinicius Nisi.

O disco continua contendo músicas “fofas”, como “Nunca” e “Canção Para Não Voltar” do primeiro CD, as quais o público cativo da banda gosta e está acostumado, mas tem também introspecção, mais espaço para o instrumental nas faixas e uma acertada escolha de regravações, a exemplo de “Que Isso Fique Entre Nós”, do músico paulistano Pélico, e “Olhos da Cara”, bela canção de Nuno Ramos que ficou marcada pela inenarrável versão de Dona Inah na abertura do álbum “Um Labirinto Em Cada Pé”, de Romulo Fróes.

Comentando sobre a volta a Maringá, sobre o disco novo, Uyara, em entrevista por telefone ao O Diário, demonstrou não ter perdido ainda aquele deslumbramento meio inocente, delicado, pela arte, pela música e, claro, pelo cênico – no palco, e também nas interpretações musicais, percebe-se que ela veio do teatro. Os fãs adoram.

Uyara e toda a turma d´A Banda Mais Bonita da Cidade são inteligentes, talentosos, bonitos e felizes. Já conversavam com um monte de gente interessante do meio artístico na capital paranaense. Agora conversam com gente do País inteiro, principalmente de São Paulo. E vão absorvendo toda esta boa experiência e levando para a música. Acostumados com os elogios daqueles que adoram escutar as músicas da banda, desde o ano passado os músicos começam a se acostumar também com o elogio da crítica especializada por causa de “O Mais Feliz da Vida”.

E sobre tudo isso, Uyara, sempre com aquele jeitinho meigo de ser, apenas dá risada e diz: “a repercussão tem sido muito bonita.”

Ela, que se emocionou bastante no show do ano passado na cidade, no Teatro Barracão, porque os pais estavam em meio à pequena plateia do teatro, diz que será um prazer voltar, agora, ao palco do Calil. “Eu me apresentei por duas vezes no Calil, participando do Femucic. Meu pai tocou nas primeiras edições do Femucic”, conta.

ENTREVISTA
Como tem recebido a crítica e público de “O Mais Feliz da Vida”?
UYARA TORRENTE –
Tem sido muito positivo, a repercussão está muito bonita, muito mais do que a gente esperava. Mas a gente não pensa na repercussão, a gente quer se divertir, fazer o disco e pronto. O primeiro disco foi muito rápido, e, neste tivemos um tempo maior para fazer, com mais calma. Então é muito bonito ver essa repercussão e acho que tudo tem a ver com a nossa felicidade e diversão em cima dele. O disco saiu em quase todas as listas de discos de destaque independentes em 2013. Para mim, particularmente, foi incrível porque, na verdade, sou atriz, vim das artes cênicas, e quando estouramos precisei bancar como cantora, de estúdio, ao vivo, mas dois anos depois, acho que estou com mais cancha, mais segura.

Um disco mais contemporâneo, talvez nem tão “bonitinho” como “Oração” e as demais do passado. Acha que um outro fã se saiu decepcionado?
Não acho não. Entendo o que quer dizer; “Oração” e outras mais fofinhas estão no primeiro disco, mas também já tínhamos umas mais pesadas, como “Ótima”. Enfim. Acho que as pessoas continuam se identificando e acho que a gente agregou um público maior, um público mais ligado às críticas de música.

Como foi gravar canções de Pélico e “Olhos da Cara”, conhecida de Nuno Ramos em projeto de Romulo Fróes?
Quando ouvi pela primeira vez a música “Olhos da Cara”, no disco do Romulo, na voz da Dona Inah, me faltou ar, achei enorme, me tocou de um jeito enorme e disse para mim: preciso cantar essa música um dia, mas sempre ficava com receio, a gravação da Dona Inah é uma coisa insuperável, mas pensei que não devia pensar que devesse provar nada para ninguém e sim com a minha história, com a minha verdade. O Pélico é um grande amigo e querido, já tinha algumas coisas juntos, vídeos juntos, a paquera tava rolando há um tempo e então finalmente gravamos “Que Isso Fique Entre Nós”.

Nos primeiros trabalhos, sentíamos uma banda legitimamente curitibana, paranaense. Com o segundo álbum, isso não fica tão claro. A proposta é alcançar novos horizontes em todo o Brasil?
Na verdade foi um processo muito natural porque eu queria cantar os cantores curitibanos. Resolvi fazer uma banda para cantar aquelas coisas dos curitibanos. Mas esse processo foi natural, principalmente depois do rolê pelo País, depois de conhecer tanta gente bacana, como o Pélico, como o Tibério Azul (Recife). No disco, a música “Maré Alta” é do Rodrigo Lemos e dele. A gente vai viajando e se encantando com as coisas, mas foi natural, não foi como em um jogo de War, em que precisamos ficar planejando conquistas de territórios.

Explique o projeto gráfico ousado com fotos de pessoas mais velhas.
A gente juntou duas coisas: o rosto muito velho na capa acabou calhando com o conceito, sonoramente falando, que nascesse na primeira música e que no final fosse para morrer e ter redenção. A gente achou que essa capa tinha a ver com esse conceito, com a história contada por um rosto, com as rugas, manchas e marcas. Na capa, a foto é da Dona Júlia, moradora de um asilo em Curitiba onde fomos tocar uma vez. No encarte de dentro, as pessoas das fotos são os nossos pais, em uma espécia de photoshop ao contrário, com um filtro que realça manchas e marcas impossíveis de se ver a olho nu.

Tal qual “Oração”, a canção “O Mais Feliz da Vida” gruda como chiclete. Foi intencional
Cara, nada é intencional. A gente não faz as coisas pensando, isso é coisa para publicitário. Mas se gruda, ótimo, legal.

A mesma pergunta de sempre: como é poder voltar à terrinha, não exatamente em Paranavaí mas bem perto?
A gente sempre gosta muito de voltar a Maringá. E o Paulinho (Schoffen), que sempre dá uma força pra gente, é um batalhador cultural aí. Quando eu era mais nova, com 13 anos, participei do Femucic aí no Calil. A cidade me traz muito isso, a coisa do festival e tal. Meu pai tem um grupo de música que participou do primeiro Femucic, quando ainda era FemuSesc.

Seguem até quando com a turnê?
A gente vai ficar o ano todo e não em turnê e sim em uma espécie de microcirculação. Agora tocamos em Campinas, depois Paranavaí, Maringá, Apucarana e Campo Mourão. Aí voltamos pra Curitiba, e depois fazemos outras microcirculações, e por aí vai. Nesse meio tempo, estamos sempre pensando e separando coisas, ideias, para o terceiro disco. Na verdade, a gente nem separa muito vida e criação artística, as coisas acabam puxando a gente.

SHOW D´A BANDA MAIS BONITA DA CIDADE
Quando: amanhã
Horário: 21h
Onde: Teatro Calil Haddad
Valor: R$ 25 (antecipado)
Pontos de venda:
Genko Mix, no Maringá Park Shopping
Café Literário (UEM)
Badulaque Estúdio Bar

*Reportagem publicada nesta sexta-feira (21) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Exposição ‘Des Cobertas’, para se pensar o Índio por inteiro

Artista plástica e professora Sheilla Souza: em meio aos vestidos de índias Kaingangs, da exposição “Descobertas”, que tem abertura hoje no Calil (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

A exposição “Des Cobertas”, organizada pela artista plástica e professora de Artes Visuais da UEM Sheilla Souza, tem abertura a partir das 20h desta quarta-feira (17), no térreo do Teatro Calil Haddad. A exposição, atração com entrada franca do projeto Convite às Artes Visuais, é realizada em parceira com artistas Kaingang e com os artistas maringaenses Tabajara Marques e Tadeu dos Santos, além de uma equipe de colaboradores da Associação Indigenista – Assindi – Maringá, estudantes indígenas e do curso de Artes Visuais da UEM.

Para a abertura da exposição na noite de hoje, haverá apresentação de dança Kaingang com o grupo da Terra Indígena de Barão de Antonina e também será servida comida tradicional Kaingang – o Emi (espécie de bolo de milho assado).

A exposição apresenta vestidos feitos por mulheres Kaingang, peças de arte indígena, fotografias e vídeo. Na manhã de ontem, dando os últimos detalhes na montagem da exposição, Sheilla conversou comigo sobre a situação atual dos índios da região e principalmente sobre as três principais sessões de “Descobertas”: a dos vestidos, a dos balaios e a dos retratos. Leia abaixo:

Os vestidos da exposição foram usados pelas índias?

SHEILLA SOUZA – Elas usavam e elas quem faziam. Elas aprenderam após receber os tecidos pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), hoje Funai. O trabalho começou há muito tempo com a Assindi juntando os vestidos que fazem parte do acervo do museu indígena da Assindi. Os vestidos são trocados, e elas ganham um corte novo de vestido quando o outro fica velho. A relação do vestido na exposição é com a invisibilidade do indígena na cidade, por isso tem volume de corpo mas não tem rosto, como se as pessoas estivessem andando e a gente não as visse. Se o índio não se vestir e falar o português, ele não tem como se defender, não tem como ir para Brasília reivindicar seus direitos nem entrar na universidade para conseguir mais respeito à sua cultura. A gente veste o índio para despi-lo de toda sua cultura original.

O que tem a dizer sobre os 40 balaios da exposição?

Os balaios têm movimento que indica que existe algo dentro que a gente conhece pouco ou ignora, assim como acontece com a arte indígena. O índio Daniel Puri, que fez o texto de apresentação da exposição, fala que o índio precisa realmente vir para cidade para conseguir defender sua mata, seu ambiente, sua cultura. Os balaios estão aí para mostrar o quanto é incoerente as pessoas admirarem a arte indígena sem que se respeite a cultura indígena.

E os retratos?

As fotografias são do Tabajara Marques, que faz parte da diretoria da Assindi. Parte desses retratos foram encobertos por uma faixa para ressaltar a invisibilidade indígena. A gente vê uma parte das fotos e não por inteiro, justamente para mostrar que tem muita coisa pra gente ver e que ainda a gente não conhece sobre os índios. A gente conhece muito dos nossos antepassados europeus, mas pouco falamos de nossa etnia indígena, isso parece que não é importante e muitos ainda querem esconder.

Essa exposição tem um sentido mais de discurso ideológico ou de estética e beleza?

A arte e a ideologia nunca estão separadas. Toda obra de arte tem um caráter ideológico, seja ela qual for. Aqui, esse aspecto de luta, de falar de questões políticas, não faz com que essa exposição deixe de ser artística. Há um tempo atrás a arte engajada recebia esse rótulo de arte panfletária, mas não é o caso porque a gente está mostrando com essas peças – que tem esse caráter ideológico, que tem esse caráter político – a questão da beleza, para que se enxergue a beleza desse conjunto maior. É uma beleza dolorida, mas temos formas de estética que trazem a dor, o Expressionismo é um exemplo. A memória precisa ser enfrentada.

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