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A tíbia por uma aposentadoria

Por Wilame Prado

De um dia para o outro, virou modinha acompanhar vida e obra dos lutadores de Artes Marciais Mistas (MMA), modalidade que antes tinha um nome mais sincero: vale-tudo. Anderson Silva é o novo brasileiro que não desiste nunca e, após perder o cinturão de maneira vexatória – tomando um socão na cara de Chris Weidman ao se distrair fazendo micagens (como sempre fez) – marcou revanche após pressão de público e patrocinadores. Novamente, deu-se mal ao quebrar a perna dando de canela bem no joelho do outro rapaz.

No caso das lutas do UFC (principal marca que intermedeia socos, pontapés e fraturas nas tíbias pelo mundo afora), assim como no futebol a pulga permanece atrás da orelha e todo mundo desconfia de marmelada quanto aos resultados. Na primeira luta entre os pesos-médios, em julho, foi tão banal a derrota do atleta patrocinado pelo Corinthians que a massa passou a conspirar suspeitando da veracidade dos fatos ocorridos dentro do octógono. Mas ficou difícil agora, na revanche ocorrida na madruga de domingo em Las Vegas, dar coro às vozes da teoria da conspiração: como diria Arnaldo Cezar Coelho e São Tomé, a regra ou a imagem é clara e servem para aqueles que só acreditam vendo.

Passo a acreditar ainda mais fortemente, com a imagem, o que nunca saiu de minha cabeça: vale-tudo é um “esporte” violento demais. O que salva a prática – e aí sim podemos chamar de esporte – é a possibilidade que os interessados têm em manter uma vida mais saudável indo até uma academia para aprender técnicas do jiu-jítsu e muay thai. Só de olhar uma aula de MMA proferida por um professor primo meu (pensem duas vezes antes de mexerem comigo!), suei em bicas. Recomendo, portanto, aos que não se importam de ficar levando pancadas, a prática de lutas como esporte. Filho meu nenhum, no entanto, jamais entrará na gaiola (aprendi no horripilante filme exibido antes da luta do Anderson Silva que o apelido do octógono é “gaiola”, nada mais apropriado) para se digladiar com outro sujeito vestido só de cueca. Nem que o prêmio for uma medalha de honra ao mérito ou um saco cheio de dólares. Dignidade e uma tíbia em seu devido lugar não têm preço. Ou então tirem as armas de perto, pois ser vítima de pacote de socos bem no meio da cara é, sem dúvida alguma, caso de morte.

Exageros de lado e gaiolas bem distantes, façamos, pois, uma análise da derrota de Anderson Silva, esse sujeito simpático, de voz fina mas cordial, com talento ímpar para duetos musicais na MPB e pontas marcantes em comédias de sucesso no cinema, um pai de uma família linda, cidadão que poderia estar matando, roubando, advogando, medicando, mas, não, preferiu ser uma estrela do MMA, mais um brasileirinho que acaba sendo exemplo de perseverança (assim como o seu empresário, o Ronaldo) e case para livros de autoajuda: perdeu porque queria ganhar demais. Como diz o velho ditado, foi com muita sede ao pote, exagerou na força e não esperava tamanha dureza em um joelho só.

Anderson Silva é um campeão. Mas todo mundo vinha percebendo que ele já não estava mais completamente afim de lutar, distanciava-se aos poucos dessa gaiola de loucos. Só que os caras querem sempre mais e mais, o circo não pode parar, e o atleta, perto dos seus 40 anos, ainda não tem o “direito” de simplesmente se aposentar, sair por cima, como vencedor de tudo e de todos, curtir uma onda com os artistas e continuar tirando uns trocos como comentarista esportivo na TV. A indústria do entretenimento exige sangue, lama e tíbias fraturadas. Mas agora sim. Acho que depois desse episódio lamentável (horrível a imagem da perna do Anderson Silva entortando), o ídolo brasileiro conquista a almejada aposentadoria, ainda que pelo caminho mais doloroso.

*Crônica publicada na terça-feira (31) na coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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