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Quis não ficar triste nesse Dia dos Pais *

Ontem, domingo, Dia dos Pais, como não fazia há muito tempo, trabalhei. Em uma época amarga da minha vida, tinha de trabalhar quase todos os sábados e domingos fazendo atendimento por telefone para o corpo técnico de uma operadora de telefonia.

Foram naqueles dias, quando tinha de trabalhar no domingo, voltar para a casa e ficar sozinho esperando a segunda-feira chegar, sem crédito no celular, sem telefone fixo, sem internet e sem companhia, extremamente só em um apartamento sujo, com um carpete mais que sujo, que, exatamente em uma noite de domingo, meio fria, meio quente, olhei para uma estrela e quis acreditar que, conversando com ela, poderia perfeitamente traçar uma comunicação com o meu velho e distante pai.

Acho que foi em 2006. O velho ainda não tinha morrido, mas era como se estivesse morto, já que ele, perdido nas noites sujas da grande São Paulo, quase não dava notícias suas. E como eu queria, naquela noite de domingo, dizer para o meu pai que eu odiava ficar sozinho enquanto passava o Fantástico na TV. Como eu queria convidá-lo para irmos a um bar qualquer e, como nos velhos tempos, ele pedir uma cerveja e eu, uma coca-coca bem gelada e um Suflair para mais tarde. Como eu queria vê-lo abrir a porta da sala, ir para a cozinha, cortar fatias de salame, jogar um limãozinho em cima e dizer assim: “come Jr., que tá gostoso”.

Neste último Dia dos Pais, neste último domingo, quando finalmente voltei a trabalhar em um domingo, quase não me lembrei do velho. Estava feliz por estar aprendendo coisas novas, um tipo de trabalho novo. Neste domingo, indo para o trabalho, percebi que estava quente, clima agradável, sol amigo, crianças brincando no parque, pais e filhos andando juntos, atletas jogando bola na quadra e uma Avenida Brasil absolutamente vazia.

Neste domingo, indo para o trabalho, vendo os filhos de Maringá comemorando a data festiva com os pais de Maringá, não fiquei triste, pelo menos não quis ficar triste. É que, justamente por estar trabalhando, pensei que, talvez, da onde estivesse, meu pai devia estar orgulhoso de mim, um cara indo indo trabalhar em pleno horário de jogo de domingo.

Quis não ficar triste no último Dia dos Pais porque sei que, mesmo aquelas pessoas que sempre destacaram os defeitos do meu velho, mesmo seus inimigos ou aqueles que acabaram sofrendo com algumas atitudes dele, absolutamente todos sempre disseram que uma de suas maiores virtudes era a sua plena disposição para o trabalho – podia ser sábado, domingo, feriado, na semana, qualquer dia que fosse, se tivesse trabalho, meu pai trabalhava, e isso ele fez dos 11 ou 12 anos até os 49, quando veio a falecer, curiosamente no Dia do Trabalho, em primeiro de maio de 2007.

Por isso mesmo, quis não ficar triste no Dia dos Pais, em que passei trabalhando e tentando, pelo menos nesse aspecto, seguir os passos do meu velho, sempre trabalhando. Afinal, é isso o que me resta: trabalhar e, graças a Deus, trabalhar com aquilo que realmente gosto de fazer, que é escrever. E, vez ou outra, também olhar para a estrela e tentar conversar com as pessoas que eu amo tanto, mas que insistem em viver a anos-luz de distância de mim.

*Crônica publicada dia 9 de agosto de 2010.

**E estou cá no trabalho em mais um domingo, em mais um Dia dos Pais, graças a Deus.

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