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Cinuem retorna em grande estilo

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Por Wilame Prado

Maringá volta a ter mais uma opção que oferece cinema de qualidade longe dos circuitos comerciais das redes localizadas nos shoppings. O projeto Cinuem, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM, retomou as atividades após alguns meses sem oferecer sessões de cinema dentro do campus.

Com a Mostra Cinema Brasileiro Contemporâneo: Emergências da Política, iniciada há uma semana, o Cinuem volta a exibir filmes todas as quartas-feiras, pontualmente às 19 horas, na Sala 1 do Bloco A34, na UEM, sempre com entrada franca. O projeto é aberto a toda comunidade e não apenas a estudantes universitários.

O cartaz de hoje do Cinuem é o filme brasileiro “Orestes”, dirigido pelo mineiro Rodrigo Siqueira (“Terra deu, terra come”) e vencedor do Prêmio APCA como melhor documentário de 2015.

“Orestes” combina elementos documentais e ficcionais para jogar luz a dois problemas atuais da sociedade brasileira: a memória e a herança do regime militar de 1964 e a violência policial sentida principalmente pelos pobres e pelos negros. Quando do lançamento, ano passado, a crítica relacionou o filme aos ataques ocorridos em Osasco, na grande São Paulo.

Siqueira recorre à mitologia grega – mais precisamente às peças teatrais de Ésquilo – para criar analogias no documentário. Na tragédia grega, Orestes mata a mãe para vingar a morte do pai, o rei Agamemnon, e ganha um voto de minerva após decisão do júri formado por cidadãos atenienses.

No Brasil contemporâneo do diretor mineiro, Orestes é um personagem fictício que mata o pai – um torturador brasileiro anistiado em 1979 e assassino da mãe do seu filho – e que será submetido a um julgamento simulado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Entre os casos reais citados em “Orestes”, algumas vítimas da ditadura militar são entrevistadas, como Ñasaindy Barrett Araújo, filha da guerrilheira comunista Soledad Barrett Viedma que foi assassinada em 1973 após emboscada tramada por José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, ex-companheira de Soledad.

A crítica de cinema Eleonora de Lucena descreveu “Orestes” como um filme original e provocativo. “Mesclando documentário, psicodrama e encenação, o diretor mexe com a plateia: cria tensão, incômodo”, escreveu ela, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2015.

Retomada
A retomada do Cinuem sempre foi desejo da PEC da UEM, mas estava parado desde que a professora Fátima Neves havia se desligado do projeto, no ano passado. Com a chegada da professora Cristiane Lima à universidade, o Cinuem ganhou sobrevida.

Ela, que veio de Belo Horizonte (MG), chegou como professora colaboradora para lecionar no curso de Comunicação e Multimeios. Com mestrado e doutorado na área de Cinema, definiu com o setor cultural da UEM o retorno do projeto.

Cristiane diz pretender aproximar o Cinuem dos alunos do curso de Comunicação e Multimeios. “A ideia é que eu coordene um grupo de curadoria, composto por alunos e ex-alunos do curso, para definir a programação dos filmes no projeto e também colaborar durante os encontros com explanações acerca das obras apresentadas”, diz ela.

Outro desafio será conseguir os filmes para as exibições, já que, agora, a proposta do Cinuem é levar ao público filmes recentes e premiados. Para isso, Cristiane se utilizará de seus contatos, amigos e conhecidos da área.

“Nesta primeira mostra de filmes brasileiros, consegui autorização dos próprios diretores para conseguir o filme ou então baixá-los”, conta ela, que finaliza: “O Cinuem permite essa abertura da universidade para a comunidade externa, e a gente acha que, desta maneira, promovemos a cultura no âmbito da cidade de Maringá.”

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (25) no caderno Cultura, do Diário

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Orquestra de Cordas abre Temporada Universitária da UEM

Por Wilame Prado

O escritor gaúcho Erico Veríssimo fazia questão de dizer, orgulhoso, que a sua cidade – Porto Alegre – tinha uma orquestra sinfônica. O músico e professor de violino Paulo Egídio Lückman relembra do autor de “O Tempo e o Vento” para afirmar: “Quem tem orquestra, tem vitrine”. Por essa razão, diz ele, nada mais apropriado que a Temporada Universitária 2013 tenha em sua abertura um concerto da Orquestra de Cordas da UEM, marcado para esta quinta-feira (31), às 20h30, no Teatro de Oficina da UEM.

Ao lado do violoncelista e professor Henrique Ludwig, Lückman é responsável pela coordenação e preparação de repertório da orquestra de cordas, que se apresentará com 17 instrumentistas, sendo, em sua maioria, estudantes de Música da UEM. Na função de spalla, o professor revela um dos grandes desafios para esses músicos, que executarão no concerto obras de Arcangelo Corelli, Edward Grieg e Gustav Holst sem a regência de um maestro.

Lückman explica que as atividades da orquestra tem caráter pedagógico, o que não impede os integrantes de ensaiarem pensando em concertos abertos ao público. O programa, por exemplo, foi definido pensando em uma linha da história da música cuja audição, garante o violinista, agradará ao público ouvinte. “Teremos traços folclóricos, coloridos harmônicos e até efeitos de som ‘estéreo’ com os violinistas solistas se posicionando um em cada lado (prática que foi comum no período barroco) no Concerto Grosso No. 4 em Ré maior, do italiano Arcangelo Corelli”, resume.

“Já fizemos Mozart pensando no período clássico e estamos trabalhando na música barroca. Já fizemos obras de três compositores ingleses da virada do século 19 para o 20. Um desses é o Gustavo Holst, que, com o movimento ‘Jig’, nos remete à música celta, agradabilíssima aos ouvidos, e ainda o último movimento com as canções ‘Dargason’ e ‘Greensleeves’, que nos remete a questões folclóricas da Renascença, também muito interessantes ao público”, diz Lückman, que alerta: mesmo com a leveza e brilhantismo, as peças são distintas de “Os Planetas”, obra mais conhecida de Holst.

Ainda no concerto de hoje, o alto romantismo do norueguês Edward Grieg será representado pelas Duas Melodias Elegíacas, inspiradas em dois poemas de Aasmund Olafsson Vinje e que falam sobre as feridas da vida e sua incapacidade de destruir a fé e também sobre a estação das cores com a possibilidade de que não haja outra oportunidade para vê-la. Mensagens poéticas que, para o spalla, com certeza são sentidas por meio das vibrações musicais.

Mesmo ansioso com os projetos para 2014, quando pensa em envolver toda a orquestra com “As Quatro Estações”, de Vivaldi, pelo menos por enquanto, com o concerto de hoje, Lückman espera que a Orquestra de Cordas da UEM faça um som digno de aplausos de um apreciador de música como foi Erico Veríssimo. Assim, considera ele, abre-se com dignidade uma temporada universitária que se propõe ser cultural.

TUM comemora 25 anos em temporada
Criada pelo Teatro Universitário de Maringá (TUM) há oito anos, a Temporada Universitária tem como objetivo fomentar a política de ação cultural na universidade e na cidade. Nesta edição, os 25 anos do TUM serão lembrados pela temporada, que começa hoje e vai até 9 de dezembro, coincidindo também com o Festival de Teatro da UEM. Segundo o coordenador geral Pedro Uchôa, devido à extensão, a programação da temporada deste ano será divulgada semanalmente.

A temporada é promovida pela Diretoria de Cultura/APC e realizada pelos atores do TUM e alunos do Curso de Graduação em Artes Cênicas. São eles quem fazem todo o trabalho de produção, ou seja: agendamento com os grupos, colagem de cartazes, distribuição de panfletos, visitas, assessoria de imprensa, recepção, auxílio na montagem da cenografia e iluminação, bilheteria, portaria, entre outros. Com isso, diz Uchôa, a temporada acaba sendo um ótimo processo de estágio para futuros profissionais do teatro.

Uma das grandes funções da Temporada Universitária é criar plateia por meio de uma programação eclética e procurando trazer espetáculos de qualidade, sempre a preço popular e acessível ao acadêmico e comunidade em geral. Todos os espetáculos deste ano acontecem na Oficina de Teatro UEM.

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (31) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Maringá perde Marciano Lopes

Por Wilame Prado e Mariana Kateivas

“Não permita Deus que eu morra/sem comer um Big-Mac”, assim escreveu Marciano Lopes e Silva, em tom irônico, na poesia “Adeus Vidinha Besta”, publicada em seu último livro “A Contrapelo” (2007). Infelizmente, não deu tempo de perguntar para ele, também na brincadeira, se finalmente havia comido o tal junk food. Marciano Lopes, escritor e professor doutor que lecionava no Departamento de Letras da UEM desde 1997, morreu aos 48 anos, às 19h da última quinta-feira, no Hospital Metropolitano, em Sarandi, após complicações decorrentes de uma pneumonia.

O velório, sexta-feira passada, na Capela do Prever, reuniu vários amigos, familiares e principalmente professores e alunos da UEM . A cremação do corpo estava marcada para as 11h de sábado, no Cemitério Park. Sem filhos biológicos e já tendo pai e mãe falecidos, Marciano deixa mulher, Fabiana Silva.

Natural de Porto Alegre (RS) e torcedor apaixonado pelo Grêmio, Marciano se destacou principalmente com os seus poemas – os quais resultaram em duas obras -, pelos programas de rádio sobre literatura que comandava na Rádio Universitária da UEM e com a idealização e organização da Jornada Interartes Outras Palavras (Jiop), eventos que mesclavam vários tipos de arte.

Desses encontros e também na sala de aula, o professor encontrava material literário para a publicação dos números da revista eletrônica No Meio do Caminho.

A colega Marisa Correa Silva, também professora de Literatura na UEM, diz que Marciano Lopes fará falta pela sua criatividade e vontade de ajudar os colegas das letras. “Escrevia, estimulava os outros a escrever, publicava textos de alunos e de ex-alunos no blog e na revista. O curso de Letras da UEM sofrerá com a falta dele.”

Para Ademir Demarchi, escritor, amigo e cronista do caderno Cultura do Diário, é uma pena ter perdido Marciano Lopes justamente quando ele se encontrava em sua melhor forma literária. “Marciano estava num momento criativo muito bom, de maturidade, que se refletia na sua poesia. Ele estava sendo uma pessoa valiosa por sua capacidade de aglutinar pessoas e de projetos distintos, numa cidade que tende à entropia, ao recolhimento de cada um aos projetos individuais.”

“O corpo vai…a poesia fica”, disse o escritor Nelson Alexandre, ex-aluno e amigo do professor. Ele revela que, como homenagem ao grande entusiasta das letras maringaenses, amigos se reunirão hoje, em local e horário a definir, para fazer o sarau da Jiop e lançar o livro “Poemas Para Quem Não Me Quer”, de Nelson Alexandre e que tem orelha assinada por Marciano Lopes, que deixa saudades. (não foi possível realizar o sarau e nem o lançamento do livro, que será remarcado)

+ MARCIANO

META-ARTE: Leia críticas, poemas, contos e outros textos do professor e escritor Marciano Lopes no blog Meta-Arte:

marcianolopes.blogspot.com.br

*Matéria publicada sábado no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Mestrando da UEM reclama do não pagamento de bolsa da Fundação Araucarária

Carta Aberta

Por Rafael Dias da Silva Campos*

Com mais de um ano completo recebendo bolsa da Fundação Araucária, ainda não obtive o prazer de receber regularmente o auxilio financeiro. Os atrasos foram tantos e tão graves, sempre com a esperança de se regularizarem um dia, que cheguei mesmo a ficar três meses em atraso, justamente no período onde, o exercício de qualquer atividade remunerada ainda era proibido. Tive a sorte de contar com a ajuda financeira de minha mãe e até mesmo de meu orientador, que sempre extrapolou positivamente suas obrigações acadêmicas.

Durante este período, encaminhei à submissão cinco artigos, em conjunto com este mesmo orientador, para revistas qualificadas (Qualis A1 a B2), com alguns inclusive de Janeiro e Fevereiro deste ano. Participamos da elaboração de material bibliográfico para o curso de História do NEAD, sob auspícios do Governo Federal e as expectativas e motivações são ainda maiores. Tanto que nos propomos a ir à Portugal para discutir sobre a dissertação e apreender mais sobre minha área de pesquisa (História das Ciências).

Todavia, mesmo com as passagens compradas tem me ficado cada vez mais clara a necessidade de desistir desta profícua troca de conhecimentos, que poderia se concretizar durante o Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências em Coimbra (Portugal). O mecenato, mais que essencial em muitos dos meses anteriores, não me será possível aproveitar nesta ocasião graças ao órgão que tantas vezes deixou de observar a simples execução do pagamento mensal. Portanto, para simplesmente comer e dormir em Coimbra, mesmo oficialmente recebendo auxilio da Fundação Araucária, terei de recorrer a amigos e familiares para pagar as custas de tal investimento. Investimento este que prevê a divulgação de uma instituição que, recorrentemente, não tem cumprido sua obrigação primeva de pagar pelo desenvolvimento de meu ofício de pesquisador.

Caso o desenvolvimento da pesquisa científica no Estado do Paraná, ainda seja do real interesse da Fundação Araucária, a escolha pelo cumprimento de uma das normas deverá ser tomada, como seja, o real compromisso com o desenvolvimento da pesquisa e pagamento de seus pesquisadores. Seria lamentável, que a instituição promotora de pesquisa do Estado que está entre as cinco maiores arrecadações do país em 2010, com R$ 27.516.204.812 (vinte sete trilhões, quinhentos e dezesseis milhões, duzentos e quatro mil e oitocentos e doze reais) não possa cumprir algo previsto no orçamento anual.

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Rafael Dias da Silva Campos

Mestrando em História

Universidade Estadual de Maringá

[email protected]

Fatos , , , , ,
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Jô Soares entrevista a sexóloga Eliane Maio

A psicóloga e sexóloga Eliane Maio, que também é professora doutora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), acaba de lançar o livro “O nome da coisa” (Editora Unicorpore) – fruto de sua tese de Doutorado em que discute a repressão sexual e a sua influência no espaço educativo.

Para desenvolver a obra, ela conta que ouviu quase 5 mil pessoas, pelo Brasil afora, para chegar a quase 1.300 apelidos para o pênis, vulva, relação sexual e masturbação.

Para divulgar ao Brasil todo o livro, ela, que é conhecida por muita gente em Maringá, foi entrevistada pelo Jô Soares na tarde de terça-feira (10). O programa foi exibido também na noite de terça.

Fiz questão de assistir a entrevista. Desde 2005, quando tive o privilégio de ter sido aluno da professora Eliane em aulas de Psicologia da Educação no curso de História da UEM, sou um confesso admirador de seu trabalho. Hoje, como repórter, minha psicóloga número um para entrevistas é sempre ela, que, de uma maneira coerente e sensata, presenteia-me com boas entrevistas.

Aproveito aqui o espaço e parabenizo a Eliane pela entrevista dada em rede nacional. Sem ficar nervosa, como grande parte dos entrevistados pelo Jô, ela conseguiu se livrar das constantes “palhacadinhas” do global, que, como sempre, exagera no humor em assuntos que merecem um pouco mais de seriedade. O recado da sexóloga, acredito eu, foi dado, que diz respeito à repressão sexual no ambiente escolar.

Tudo bem que é sempre muito engraçado ficar falando de pênis e vagina (durante toda a entrevista, Jô ficava fazendo piadas sobre a vulva e demonstrou pouco conhecimento de causa), mas chega uma hora em que cansa. Ontem, cheguei à conclusão, mais uma vez, que, antes de um bom entrevistador (como são os caras do Roda Viva, por exemplo), Jô Soares não passa de um apresentador de programas de plateia, preocupado mais com o entretenimento do que com o conteúdo.

Abaixo, as duas partes da entrevista de Eliane Maio. E para quem quiser adquirir o livro, visite o site da editora Unicorpore.

http://www.youtube.com/watch?v=vS2U9McbQoo

 

http://www.youtube.com/watch?v=_ZZycStY78c&feature=watch_response

 

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O viver quando velho*

Como alguém que completou 80 anos deve ver o pôr-do-sol? E uma despedida? Para alguém já com uma certa idade, o quê deve significar um ‘simples’ tchau? O que será que nossos avós sentem quando nos despedimos, prometendo voltar em breve? Será que ficam aliviados de terem se livrado de um jovem sem espírito e coração? Ou pressentem que será a última vez que verão os filhos dos seus filhos?

Não deve ser tarefa das mais fáceis viver um dia de cada vez, sabendo que o futuro é incerto e que as chances de ser ter a vida esgotada são muito maiores do que há alguns anos atrás. Por isso mesmo, penso que viver quando velho deve ser algo intenso, uma vida cheia de rituais importantes e agradecimentos mais sinceros até mesmo pelo ar que se está respirando, pela comida que se está ingerindo, pela presença, ainda que rara, de parentes e amigos queridos.

Antes de começar a escrever, pensei em podar a minha expressão linguística, tornando-a politicamente correta e, convenhamos, totalmente eufemística. Traduzindo, iria usar o termo “idoso” e não “velho”. E que me desculpem os velhinhos, mas quando eu tiver mais idade não quero ser chamado de idoso. Pretendo aceitar a minha velhice. É o processo natural. O tempo passa, o tempo voa. As coisas envelhecem, inclusive o ser humano. E isso não significa dizer que o velho é ruim. Lembrem-se dos uísques doze anos.

O professor Claudio Stieltjes, coordenador geral da Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati) da UEM, deve concordar comigo quando o assunto é eufemismo. Dias desses, tive o prazer de entrevistá-lo. Entre outras coisas, ele me disse que preferia o termo “terceira idade” ao termo “melhor idade”. Como muito bem pontuou a professora Regina Taam, coordenadora pedagógica do Unati, a melhor idade é quando estamos vivemos momentos bons. E isso pode acontecer quando criança, quando adolescente, adulto ou bem mais velho.

O desafio de se viver bem se torna maior na velhice, creio. Uma pessoa mais velha naturalmente encarou, por exemplo, muitos velórios de entes queridos. As pessoas ao redor vão morrendo. Um amigo aqui, outro amigo lá. Os pais, há décadas já se foram. Alguns filhos também podem acabar morrendo. E isso parece ser algo triste mesmo. Há muitos motivos para se entristecer, sejamos sinceros.

Mas, o que fazer nessas horas? Para onde correr? Entregar-se? Não, pois, com 5, 25 ou 85 anos de idade, aquele sol vai estar se pondo pela tarde e acharemos bonito o crepúsculo, os rituais precisarão ser cumpridos, os agradecimentos deverão ser feitos religiosa e diariamente. Além do que, aquele sorriso sincero do seu bisneto te fará perceber o quanto ele se parece com seu neto, que se parece com seu filho.

Percebendo que a vida continua com o repasse genético de gerações e gerações, o velhinho finalmente chega a conclusão de que também há motivos para se alegrar. É quando ele se pega, em um dia qualquer da semana, enquanto coa aquele café de manhãzinha, com um quase sorriso esboçado no rosto enrugado e a cantarolar uma música bonita que o faz lembrar de uma moça muito bonita e que um dia ele chamou de meu amor.

*Crônica publicada dia 5 de abril de 2011 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Charutos*

Acho que a grande maioria dos garotos que atinge certa idade começa a desejar algumas coisas que, em certo ponto, é por influência de filmes norte-americanos. Foi unanimidade quando tocaram no assunto de charutos. Estava combinado de que seria naquela noite linda de sexta-feira, onde a negritude que esmagava nossas cabeças se entrosava com a brisa amena e deliciosa que esvoaçava os cabelos compridos de nós. Eu, Flávio e Caetano.

Em frente ao estádio, num bar, ou melhor, num boteco de esquina, foi que experimentei pela primeira vez um charuto. Eu achava que todos que estavam naquele ambiente boêmio iria olhar para mim de um jeito diferente; senti-me mais importante, mais mal, mais Fidel, mais jogador de pôquer, mais Juan Carlos Onetti, mesmo sem saber se ele fuma charuto. Caetano também estava no auge de um orgasmo “charutual”, porém não tomava tanta cerveja como eu. E Flávio, coitado, não se dava ao deleite de experimentar essa sensação de grandeza, sendo que, para mim, era o que mais merecia, pois era um cara humilde, que tinha todo direito de pelo menos uma vez se sentir mais do que os outros.

Apesar de não sabermos se o charuto era de boa qualidade, fizemos um ritual e tanto, pois, de fato, merecia. Caetano mordeu a ponta, pois qualquer bom fumante de charuto sabe que, se cortar com a tesoura afeta o sabor (eu não sabia). Depois, tratamos logo de arrumar uma caixa de fósforos. Recusamos o isqueiro da velha do bar e perguntei para a senhora se ela estava de brincadeira comigo, pois uma dona de um bar deveria saber que acender charutos com isqueiro corrompe o sabor original do nobre fazedor de fumaça (eu também não sabia, quem me falou foi o Caetano). Percebia que estava mais esnobe, mais norte-americano, mais desgraçado.

Acho que é por isso que existem tantas pessoas más e ridículas neste mundo. Não por causa de uma simples merda de um charuto, mas de pequenas coisas materiais que sobem nas cabeças das pessoas, corrompendo a dignidade, até então, original de cada ser. Vou explicar melhor: as pessoas são outras depois de conseguirem algo que tanto almejam e que provavelmente tem um status maior do que de outro grupo de pessoas. Você seria a mesma pessoa depois de virar um presidente de um país, de um movimento estudantil ou de qualquer presidência? É óbvio que agora você fala que seria a mesma pessoa, mas é aí que está a questão. Não é por querer. É um mal de todo ser humano. É inevitável.

Mas, voltando a descrição daquela linda noite, onde nada poderia evitar a bebedeira, nem a tristeza ou alegria contida em nossos corações, pois, afinal de contas, além de ser sexta-feira, ainda era a primeira vez que eu e meu amigo Flávio bebíamos juntos. A primeira de várias bebedeiras. Logo em seguida, depois de tomar um pouco no boteco ao lado do estádio, fomos em direção aos nossos humildes lares, onde talvez um banho quente estaria nos esperando ou até uma pilha de louças para lavar, visto que é atividade normal do cotidiano de moradores de repúblicas. Refleti bem e lembrei que havia oitenta por cento de chances de ter uma louça me esperando e ainda um banheiro para lavar. Juntando isso com certo grau de excitação que a cerveja e o magnífico instrumento de elevação moral – o charuto – haviam provocado, insisti aos amigos para que não deixássemos a tão linda noite boêmia se encerrar tão cedo.

Então fomos para outro boteco, ou melhor, fomos para uma lanchonete fazedora de lanches, ao lado do bosque que continha blocos humildes e paupérrimos, a Universidade Estadual de Maringá. Lá, tomamos cerveja para valer. No meio da jornada de morticínio de neurônios chegou um amigo meu da província e um amigo de curso do Flávio, que também era meu amigo de trabalho. Eles perceberam meu ponto de excitação alcoólica, deixando-me irado. Esse motim durou dois minutos até que, como uma fórmula mágica,vejo Dasy, amiga nossa de trampo, passando dentro de uma circular.

Devido a vários fatores que já mencionei, dei meu primeiro fiasco da noite: quase parei a circular só para dar um oi à nossa companheira. Porém, devido ao seu alto grau de reflexo, vendo rapidamente que existia um copo de cerveja em minha mão, ela me esnobou. Isso me deixou muito triste, pois, até então, pensava que ninguém tinha coragem de rejeitar Fidel Castro, o fumante de charutos.

Bebemos bastante ainda, mas já não era a mesma coisa. Ainda aconteceram coisas incríveis, como exemplo outra circular passando na rua com outra amiga nossa. Tentei me animar, mas pensava seriamente em desistir de ser o chefe de Estado de um país socialista.

Ora. A vida, nesse dia, deu-me um golpe. Logo percebi – com o passar das bebedeiras, com o passar dos anos, com o passar dos acontecimentos – que a vida é essa. Um golpe. A felicidade são todas ilusões muito bem detalhadas, umas duram mais do que as outras. Uns se enganam a vida inteira achando que são felizes, mas todos, sem exceção de ninguém, percebem que a felicidade plena não existe. Assim como Santo Agostinho a denominava como o conhecimento de Deus, assim como um milhão de românticos acham que felicidade é quando se encontra alma gêmea, assim como Flávio acha que felicidade é poder saber tudo de Gabriel García Márquez e ser seu discípulo, eu, naquela sexta-feira linda, achava que tinha encontrado a felicidade naquela merda de charuto.

Volto para casa. Já é tarde, ou cedo, dependendo do ponto de vista. Lembrei-me de que teria de trabalhar no outro dia, ou melhor, daqui algumas horas. Isso me fez perceber que a ressaca estava começando. O gosto de charuto na boca me deixou de mal-humor. Percebo definitivamente que não gosto de charutos, nem de me sentir melhor do que ninguém. Percebo que o bom e velho humilde que sou, volta ao meu corpo. Cheguei atrasado ao serviço. Levei bronca, e isso é deprimente. Será que minha chefe fuma charutos?

*O primeiro conto escrito por mim, em 2004. Também publicado em A Poltrona.

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O jovem no vestibular*

Um batalhão de jovens se reuniu em frente ao bloco da universidade, em pleno domingo de manhã, todos ávidos para entrar logo nas salas e começar a torrar o cérebro nas questões de mais um vestibular da Universidade Estadual de Maringá, o de inverno.

E como são feios esses jovens, pela manhã, sem o brilho da noite, sem a máscara da maquiagem e sem o sorriso que se estica na cara, assim como quando estão, de maneira descontraída, dialogando com seus pares. Jovens feios, tensos, com tiques nervosos, um músculo da cara não para de se mexer (é como se tivessem mascando um chiclete cujo gosto não acaba jamais) e todos, absolutamente todos, têm espinhas na cara.

Muitos dali, talvez pouco acostumados com grandes batalhas na vida, com exceção daquelas travadas no videogame, encaram aquele momento como sendo único, mediúnico, um tanto quanto sagrado e decisivo, esse negócio de fazer vestibular. Afinal, é chegado o momento do grande teste, o que vai atestar, para seus pais, se realmente os anos passados nos colégios, e todos aqueles gastos, foram válidos.

No vestibular, pelo menos atualmente, é onde os fracos não têm vez. Não existe esse negócio de sorte. É impossível responder, com precisão, a maioria das questões sem estudar. Entretanto, percebe-se que, para quem realmente estudou, para quem pelo menos prestou atenção nas aulas do ensino médio e fez a lista de exercícios pedida pelos professores no dever de casa, esses não terão grandes obstáculos para responder corretamente as questões do vestibular.

Só que, então, começa um grande problema e que atinge grande parte desses jovens. Eles são feios e nervosos. Não conseguem conter suas ansiedades. Não têm jogo de cintura. Não têm experiência. Fossem jogadores de futebol, nunca teriam jogado no Maracanã.

Esses jovens, completamente desgarrados das suas tribos, são um bando de maricas, que, na hora H, perdem o rebolado e se esquecem do quanto são ousados na hora de praticar o bullying e tantas outras fanfarronices no colégio. Esquecem-se o quanto são corajosos a ponto de, só para chamar a atenção, desrespeitar descabidamente seus mestres, tacando-lhe o giz ou fazendo gracejos em suas costas.

Mas não é bem assim no vestibular. Naquele momento, com seus punhados de balas de cereja e barrinhas de cereais espalhados pela mesa, se pudessem, esses jovens, em mais uma questão que testa seus conhecimentos sobre a população de bactérias em um gráfico exponencial, pediriam ajuda aos universitários, pediriam para sair, como os que não resistem aos testes do Bope, clamariam, mais uma vez, para não ter nascido.

Jovens estes, sempre muito feios, naquele momento difícil, lembram-se do quanto é gostoso aquele abraço de mãe ou aquele beijo de pai e se emocionam no momento em que finalmente veem o carro da família chegando para buscá-los na porta da universidade.

Esses jovens, depois de mais uma prova de vestibular, chegarão em seus lares, almoçarão, dormirão um sono gostoso no sofá da sala, ao som de Sessão da Tarde, finalmente vão acordar, vão se olhar no espelho e vão se desesperar porque acharão, erroneamente e no auge da sua insegurança, que são feios, burros e preteridos por todos. Nem sequer imaginam, aqueles tolinhos, que serão aprovados no vestibular, que nunca foram tão bonitos como na juventude e que, sim, caros colegas pessimistas, há um futuro brilhante para todos.

*Crônica publicada dia 20 de julho de 2010 na coluna Crônico, no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Extremismo e jeitinho**

Contra sua vontade, Matsumoto é escolhido para casar com a filha do chefe da empresa onde trabalha. Ele já tem namorada, mas os pais o pressionam para que siga o caminho do sucesso, casando com a boneca de luxo, filha de um homem rico. Sendo assim, Sawako, a ex-namorada, tenta se matar, mas consegue apenas, com overdose de remédios, perder a memória. Com peso eterno na consciência, o rapaz abandona o casamento manjado e vai até o hospital buscar a antiga amada, que agora mais parece vegetar no mundo.

Os dois viram mendigos. Ela não se lembra de nada e se torna uma pessoa totalmente indefesa. Para protegê-la, Matsumoto amarra uma corda na cintura de Sawako e vive, assim, literalmente amarrado em seu amor até seus últimos dias. Essa é uma das três histórias sofridas de amor retratadas no filme “Dolls”, do diretor japonês Takeshi Kitano, rodado em 2002. Uma mulher que espera seu namorado na praça durante 30 anos para levar seu almoço e um fã que fica cego de propósito para agradar a cantora de sucesso são os outros lancinantes dramas amorosos do longa.

Dizem que o pessoal lá da Ásia é meio extremista. Ou quem aqui nunca ouviu falar de japoneses que se matam por não terem conseguido entrar na universidade? São pessoas que mantêm tradições, honras e cumprem com seus ideais, sem titubear. Cito outro filme, “Old Boy”, que não é de um japonês, mas é do diretor sul-coreano Park Chan-wook. No filme, o protagonista fica quinze anos confinado em um quarto por pura vingança de um conhecido dos tempos de colégio. Não vou entrar em detalhes para não estragar o filme.

Tenho alguns amigos japoneses. Uns são inteligentíssimos e dedicados. Outros gostam de uma farra e não se preocupam com absolutamente nada. Porém, todos, sem exceção, sabem jogar vídeo-game. Os extremismos citados acima, sejam nas representações fílmicas ou na realidade de conhecidos, basicamente é o que sei sobre os simpáticos asiáticos, de olhos puxados.

Mas agora que os balões dos japoneses já não sobrevoam os ares de Maringá, fico cá matutando: o que eles devem pensar do jeitinho brasileiro, do modo como sempre procuramos levar vantagem nas situações e de toda a corrupção existente no País, que contamina desde mendigos até presidentes? Ainda bem que o centenário da imigração japonesa caiu justamente em 2008 – ano de eleições municipais no Brasil.

Apenas em anos políticos, ou quando recebemos visitas, é que os buracos do asfalto finalmente são tapados, as pontes e os parques são inaugurados (mesmo não estando prontos), as árvores voltam a ser plantadas e tantas outras obras que poderiam favorecer a população em anos anteriores são realizadas. Temos sempre de esperar três anos de mandato para vermos algo acontecer. É de se pensar que, talvez, a solução seria realizar eleições anualmente ou, então, comemorações de centenários com mais frequência.

*Crônica publicada dia 1 de julho de 2008 no jornal O Diário do Norte do Paraná.

*Lembrei desta crônica porque, amanhã, quinta feira, 10/06, no Teatro Oficina, às 18h30, o Cinuem exibirá o bonito filme “Dolls”. Não percam. Abaixo, o trailer do filmaço:

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