Um erro emocional



Sobre paixão e memórias silenciosas*

“Um erro emocional”, de Tezza, é um livro sobre paixão e sobre como nos portamos quando estamos frente a frente com a pessoa pela qual estamos apaixonados

“Um erro emocional”, novo romance de Cristovão Tezza, é silencioso; nas quase 200 páginas do livro, o casal de personagens pensa mais do que conversa, e a memória das lembranças da vida dita a prosa

Wilame Prado

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Após o estrondoso sucesso do livro “O filho eterno”, lançado em 2008, Cristovão Tezza volta a publicar. O romance “Um erro emocional” (Editora Record, 192 páginas) saiu há pouco da gráfica e já está disponível nas livrarias do Brasil. Para os fãs do catarinense radicado em Curitiba, é mais um grande livro a ser consumido de maneira voraz e rápida – o texto bem elaborado do autor faz com que o leitor não queira parar de ler enquanto não descobre o desfecho da história (eu, por exemplo, acompanhado de um tereré, o li de uma tacada só, deitado no sofá, em uma madrugada maringaense tranquila).

Não por acaso, a fluidez impressionante em “Um erro emocional” é explicada pelo próprio Tezza, em uma entrevista respondida por email, enquanto o autor saía de Pampulha, em Minas Gerais, rumando ao Rio de Janeiro, para, mais tarde, retornar à fria Curitiba. Segundo ele, o seu novo livro, na verdade, foi idealizado primeiramente como conto. Mas, no decorrer de dois anos, reunindo fragmentos, acabou transformando-se em romance.

Ao contrário do que acontece em “O filho eterno”, Tezza não tem uma surpreendente e comovente história para contar em “Um erro emocional”. Não há muitas descrições de lugares, de situações e de conflitos pessoais. No eleito melhor romance do ano de 2008, o escritor, misturando realidade e ficção, narra uma história densa, que começa com o nascimento de seu filho, o Felipe, tem um grande clímax quando ele descobre que o piá nasceu com Síndrome de Down, se desenrola com o processo de aceitação desta situação e se finaliza com o pleno crescimento e desenvolvimento do filho.

Já em “Um erro emocional”, Tezza simples e belamente narra um fato isolado: a ida do escritor renomado Paulo Donetti (vencedor de Jabuti e tudo) ao apartamento da sua leitora número um, Beatriz, para dizer que havia cometido o “erro emocional” de ter se apaixonado por ela. E também, mas isso parece ser apenas uma desculpa, para que ela fizesse uma edição e digitasse em um computador seus escritos reunidos em amarelecidas folhas de manuscritos.

E para aqueles que imaginam se tratar de outro romance autobiográfico, já que o personagem principal é um escritor conhecido como ele, Tezza faz questão de afirmar que a sua cota como narrador de fatos reais já se encerrou. “O único livro autobiográfico da minha vida foi ‘O filho eterno’. Com ele, esgotei o poço! O resto é literatura. O personagem Donetti já aparece no ‘Ensaio da Paixão’, de 85 – eu já esboçava um personagem escritor (com o mesmo sobrenome). E a Beatriz nasceu de uma série de contos, muitos já publicados”, revela, em outro email, já em Curitiba, um dos maiores romancistas vivos do Brasil.

Paixão, memórias e o não dito

“Um erro emocional” é um livro sobre paixão e sobre como nos portamos quando estamos frente a frente com a pessoa pela qual estamos apaixonados. Quem está apaixonado, logo se identifica com a prosa, que transmite muito bem a sensação de pavor sentida nesse momento, a vontade de querer impressionar o outro e a linha tênue que separa o que pensamos, o que almejamos dizer e o que de fato falamos para a outra pessoa.

E, diante desta situação, o escritor concentra esforços para narrar o não dito e o que as personagens estão pensando naquele momento, entre as folhas de textos inéditos de Donetti em cima da mesa, entre as intermitentes taças de vinho tomadas por ele e por Beatriz e entre um pedaço ou outro de uma pizza.

“A memória queima. Longe dela, brilha o deserto”, a frase destacada por Tezza e posta uma página antes de o romance começar traduz muito bem o que é aquela história prestes a ser lida: transcrição da memória das personagens, que extravasam sentimentos e que, por meio de lembranças (principalmente da ex-mulher dele e do ex-marido dela), influenciam sobremaneira no modo como agem naquele apartamento, localizado em Curitiba.

Mais do que traduzir em texto tudo o que Paulo e Beatriz estão pensando, Tezza vai um pouco além. Traz, com a memória de ambos, as personagens secundárias da trama, como exemplo a Doralice, melhor amiga de Beatriz, o psicanalista de Donetti, seu inimigo Cássio e também os ex-companheiros dos dois. Nesses casos, o escritor usa e abusa de parênteses para compor melhor o texto e fazer com que o leitor consiga entender o que exatamente está se passando na cabeça pensante deles.

Só quem mesmo tem o quê escrever, e sabe desenvolver com maestria esta tarefa, consegue prender um leitor durante tantas páginas em uma história que fica mais no mundo das ideias, um romance intenso, psicológico. Tezza, que afirma estar treinando este estilo narrativo há alguns anos, teve aumentado o seu poder de conseguir descrever uma história que se passa de maneira silenciosa.

Em “Um erro emocional”, os diálogos em si ficam em segundo plano para que a memória, os pensamentos, as incertezas e os constantes erros emocionais, que, de repente, podem ser evitados com o simples cálculo de pensar muito bem antes de pronunciar palavra, fiquem somente na memória, que queima e se explode nas inenarráveis lembranças de um passado recheado de situações delicadas envolvendo principalmente paixões e amor.

Não sei bem ao certo como são os critérios de avaliação na hora de se premiar os romances em prêmios como o Jabuti, por exemplo. De todo modo, “Um erro emocional”, por toda a qualidade literária reunida em mais um bom trabalho de Tezza talvez merecesse mais louros do que o querido “O filho eterno”. Porém, deve-se levar em consideração o fato de que uma história tão bela e, ao mesmo tempo, chocante, em que um pai revela a fria rejeição que sentiu pelo filho que nasceu com Síndrome de Down pode chamar muito mais a atenção, tanto de público como de crítica, do que um relato de memórias dos errantes e emotivos Paulo Donetti e Beatriz.

Vivendo de literatura – Junto a tantas premiações, inevitavelmente Cristovão Tezza ganhou também boa quantia de dinheiro com “O filho eterno”. Só o Prêmio São Paulo de Literatura, por exemplo, rendeu-lhe R$ 200 mil. Com isso, Tezza largou as aulas que lecionava na Universidade Federal do Paraná para dedicar-se exclusivamente à literatura, o que, para grande parte dos escritores brasileiros, ainda é algo impossível.

Trecho do livro “Um erro emocional”

Cometi um erro emocional, Beatriz se imaginou contando à amiga dois dias depois — foi o que ele disse assim que abri a porta, o tom de voz neutro, alguém que parecia falar de uma avaliação da Bolsa, avançando sem me olhar como se já conhecesse o apartamento, dando dois, três, quatro passos até a pequena mesa adiante em que esbarrou por acaso, depositando ali o vinho com a mão direita e a pasta de textos com a esquerda (e ela se viu desarmada no meio de três sinais contraditórios, o erro, o vinho, o texto, mais a espécie de invasão de alguém que está à vontade — o que ela havia sonhado, Beatriz teria de confessar à amiga, e ambas achariam graça da ideia — à vontade, mas não do modo correto) e Beatriz fechou a porta devagar com um sorriso de quem se vê imersa na ironia, e isso é bom; e se virou para escutar o resto, agora vendo-o com as mãos livres, a silhueta contra a luz, os braços brevemente desamparados daquele homem magro:

— Eu me apaixonei por você.

Isso acontece, ela pensou em responder, a esgrima instantânea de alguém que entra num jogo difícil mas saboroso, mas não disse, o gesto lento ainda lá atrás abrindo a porta para um erro emocional, e ela de novo sorriu defensivamente em silêncio daquele provável mal-entendido, tentando colocar o breve evento de três segundos num quadro que lhe desse um sentido seguro, mas era impossível, porque agora, como se ela não existisse, ou (corrigiu-se) como se a reação dela fosse para ele um dado completamente irrelevante nesse momento, um “não estou interessado no que você pensa a respeito disso, o problema é meu” — e ele suspirou, puxou uma cadeira, sentou-se, abriu a pasta e, alguém que não havia dito o que havia dito, de novo olhou para ela:

— Vamos conversar sobre o nosso trabalho?

Uma cena com um toque de teatro, ela avaliou, como quem põe uma moldura nesses três segundos, pendura-os na parede, e assim encerra o que não tem solução. Uma homenagem que ele me faz, uma homenagem gratuita, ela interpretou, quase com vergonha. Soterrada pela timidez, preferiu não dizer nada, cuidando de manter a sombra do sorriso no rosto para que ele interpretasse o seu silêncio do modo certo, isto é, não como uma reação a uma invasão agressiva de sua vida — na noite anterior acontecera apenas um jantar civilizado a três, a sincera admiração pelo bom escritor, um certo derramamento dele que ela atribuiu ao exagero do vinho, dentro da medida do aceitável, nenhum vexame, e a proposta quase casual, de fim de noite, para que ela o ajudasse em alguma coisa que Beatriz não entendeu mas aceitou imediatamente, porque seria afinal manter contato com um escritor que se admira: e de tão poucos e ralos sinais (o telefonema esquisito de manhã cedo, aquela mal disfarçada aflição de quem dormiu mal), ele agora irrompe abrupto em sua casa dizendo-se apaixonado, sem sequer olhar para ela — que ele mesmo interpretasse o silêncio dela, Beatriz seguiu planejando, enquanto procurava o saca-rolhas na gaveta da cozinha, onde desta vez não estava, não como uma recusa da paixão (e sorriu da ideia, paixões não se recusam — apenas explodem e sobrevivem independentemente da ação dos envolvidos), mas como um precavido e cuidadoso e sensato pé-atrás.

3 perguntas para Tezza – “Um erro emocional é mais intimista, concentrado”

O Diário – Para o senhor, todas as paixões são erros emocionais?

Critovão Tezza – Não, certamente não. O título é irônico – há um tom de ironia quando Donetti define sua paixão como um “erro”. É também uma espécie de “defesa prévia” de sua aproximação amorosa.

Qual é o grau de dificuldade para se escrever um livro de quase 200 páginas que, porém, se passa inteiramente em algumas horas dentro de um apartamento, com duas personagens fazendo a memória queimar e as lembranças explodirem a todo momento, dando fôlego à narrativa ligeira?

Tezza – Para ser sincero, não sei. É um livro que escrevi aos fragmentos, ao longo de dois anos, e que originalmente foi pensado como um conto. A dificuldade é não perder o fio da meada e a tensão da linguagem. Ou seja, a de sempre, para quem escreve.

Há uma evolução literária entre “O filho eterno” e “Um erro emocional” ou, assim como a crítica em geral, o senhor considera o seu trabalho de 2008 praticamente insuperável de tão bom?

Tezza – São livros diferentes, muito diferentes. Do ponto de vista técnico, “Um erro emocional” apura aspectos do ponto de vista narrativo que eu vinha desenvolvendo desde “O fotógrafo”. Em “Um erro emocional”, eu radicalizei o recurso de aproximar & distanciar o narrador da consciência dos personagens. Do ponto de vista temático, são livros com embocaduras diferentes. “O filho eterno” tem uma temática mais ampla; “Um erro emocional” é um livro intimista, concentrado.

Para ler

Título: Um erro emocional

Autor: Cristovão Tezza

Gênero: Romance brasileiro

Editora: Record

Quanto: R$ 34,90

Avaliação: Ótimo

*Resenha publicada dia 26/08 no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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