violência



Vidas tão cheias de mortes

Por Wilame Prado

Tento, não consigo, imaginar o sofrimento real de uma mulher vítima de estupro. Imagino, então, na base do irreal, Cassandra, minha personagem fictícia, após o estupro, madrugada perdida, delegacia, boletim de ocorrências, pesadelos de lembranças, ela só queria voltar pra casa depois de uma tarde-noite de trabalho na lanchonete, o ônibus já não passava naquele horário, mas era madrugada de sábado, e o lar nem era tão longe assim. E culpar quem pelo infortúnio de, justo naquele horário – ela não se esqueceria jamais da hora exata do fim de sua primeira vida, do começo da segunda “vida”, após ser estuprada, era 1h43 da manhã –, cruzar com aquele homem asqueroso, cruzar com aquele espécime que nem pode ser chamado de gente, ele achando que mulher não pode usar saia porque, assim, está dando chamamento para a sanha dele, dando asas à imaginação do diabo que invadiu a sua cabeça.

Cassandra morreu à 1h43 daquela madrugada de sábado. Imagino-a. Já em casa. Com nojo da vida. Com nojo do seu corpo. Com uma culpa herdada forçosamente por um estuprador. Com um medo assustador de chagas, micróbios, vírus, bactérias, de Phthirus púbis – o famoso chato – DST, HPV, sífilis, Aids, as mortes subsequentes.

Sim, porque Cassandra, a filha do Carlos e da Maria, tratada como porcelana rara dentro de casa, cuidada como diamante e amada como a mais pura das criaturas, essa não existe mais, morreu. O estupro é um homicídio cujas marcas vão além do assassinato: é morte da vida sentida, morte daquele mínimo de sensatez espiritual que se precisa para combater a vida no inferno que é a terra. O estupro é um tiro na alma. De escopeta. Cassandra está acabada, incrivelmente sem forças para sequer respirar, abrir os olhos, tomar um gole de água e para pensar em suicídio.

Deus, ela começa a pensar em Deus após vários medicamentos e algumas horas de sono pré-fabricado e atolado até a tampa de pesadelos dos mais terríveis, nada, claro, comparado ao pesadelo da vida, de uma vida pós-morte. Cassandra pede para Deus a fórmula da reinvenção humana. E não é atendida. Vai continuar se olhando no espelho por anos e evitando descer o olhar para sua região íntima.

É desmoralizante olhar para seu órgão genital. Quando vai ao banheiro, os movimentos para a higienização são mecânicos, rápidos. Evita o toque, evita o pensar. Para ela – a minha personagem fictícia –, é castigo demais lembrar do seu órgão sexual. Depois de ter morrido, naquela madrugada de sábado, à 1h43, ela nunca mais se envolveu sexualmente e desenvolveu duas hipóteses malucas e, quiçá, analgésicas: o estuprador ou era um alienígena ou era Jesus Cristo.

Mas não quero ser o pessimista da história, desanimar as vítimas ou abalar leitores com o calvário de Cassandra. Percebo que ela, em minha ficção, não consegue dar cabo da própria vida. Então – a história é minha, faço o que eu quiser com ela – num ato de heroísmo (penso, ridícula e doentemente) dou uma forcinha para ela, um ataque fulminante do coração, nem sentiu dor, morreu de susto, ao lado de bolachas de água e sal e chá de erva cidreira, numa noite fria de outono, a TV ligada no Animal Planet trazia aos telespectadores sete fatos curiosos sobre as águas-vivas.

Cassandra morreu duas vezes em seus 28 anos de idade. E fim. Sorte a dela ser apenas um espectro da minha imaginação, que, confesso, abalou-se estarrecedoramente com a pesquisa que apontou a brutalidade insana, inconsequente e desesperadora de uma parcela significativa de brasileiros que acha que a mulher que mostra o corpo merece ser atacada.

Faço, então, um exercício de compensação mental e desqualifico a informação de que 65% dos brasileiros concordam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, número apontado pela pesquisa divulgada semana passada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), feita a partir da entrevista de 3.810 pessoas de ambos os sexos entre maio e junho do ano passado.

Mas então dou uma olhada no post na página no Facebook da Folha de S. Paulo, com foto da leitora Bianca Medeiros, 19, em apoio ao protesto virtual “Eu não mereço ser estuprada”. A foto, até o começo da tarde de domingo, já havia sido curtida por mais de 150 mil usuários da rede social e já havia sido compartilhada quase 24 mil vezes. Nos milhares de comentários, comprovo que a pesquisa pode – para desespero de todos – estar correta. Homens e mulheres não se intimidam em xingar a moça de vadia e de, aparentemente, considerar que os estupros são culpa das vitimadas.

Como disse em outra crônica, o advento da internet serviu para comprovarmos talvez aquilo que sempre soubemos, mas tínhamos receio de dizer: o ser humano é um fdp mesmo. Só espero que Cassandra e tantas outras mulheres – estima-se que haja anualmente no País 527 mil tentativas ou casos de estupros, sendo somente 10% reportados à polícia – encontrem a paz, onde quer que elas estejam, nessas vidas tão cheias de mortes.

*Crônica publicada nesta terça-feira (1º) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Quantos leitores tenho eu?

O meu colega jornalista, cronista e escritor Paulo Briguet, de Londrina, afirma, de quando em vez, que tem apenas sete leitores. Cá me pergunto, com pulga atrás da orelha e um tanto quanto apreensivo: imagine, então, quantos leitores há de se ter este pobre cronista que vos escreve (talvez dois, contando a minha mãe), hoje inaugurando este blog, mas que, desde janeiro de 2008, atualiza o agora de férias indeterminadas A Poltrona (www.apoltrona.blogspot.com) e que, desde o dia 18 de março de 2008, publica crônicas semanalmente para o caderno D+ do Diário do Norte do Paraná sob a alcunha de “Crônico” (www.odiariomaringa.com.br/cronico).

Para descobrir outros caríssimos leitores, sem contar os fieis amigos, conhecidos e parentes, apropriar-me-ei de uma técnica imbatível, utilizada há muito tempo pelos nossos professores. Assim como os mestres no primeiro dia de aula, começo me apresentando e peço para cada aluno, ou melhor, para cada visitante do blog, também se apresentar. Mas podem ficar tranquilos, pois, nesta brincadeira cordial, vocês não precisarão dizer o que fizeram nas férias e nem o que querem ser quando crescer. Apenas digam quem são por meio do espaço dedicado aos comentários do post. Apareçam!

Conheçam-me

E para quem ainda não me conhece, finalmente me apresento: eu me chamo Wilame Prado, tenho 24 anos, nasci em São Paulo-SP, já morei em Santa Fé-PR, há seis anos moro em Maringá-PR, já trabalhei em Mandaguari-PR, sou casado, jornalista, quero voltar a estudar História na UEM, ultimamente ando muito feliz com o fantástico futebol do Santos Futebol Clube, não tenho filhos, não plantei árvores, mas estou gerando um livro para tão logo e pretendo, com minhas atualizações diárias neste espaço, oferecer aos leitores (será que já tenho três?) crônicas, contos, artigos, textos, rascunhos, linhas, palavras, letras, assopros de ideias, tudo sobre as rotineiras canalhices da vida como ela é.

Para isso, é claro, preciso escrever sobre futebol, literatura, cinema, música, mulheres, cervejas, água mineral com gás, as nuances da nossa Maringá e região, Paraná, Brasil, mundo, mundão, mundinho, quadrinhos, desenhos, rabiscos, pichações, indústria cultural, jornalismo canalha, jornalismo decente, fotografia, crimes, castigos, promessas, politicagem, cidadania, malandragem, Chico Buarque, Gabriel García Márquez, gato, cachorro, rã, princesas, sapos, baladas, babados, boatos, fatos, divagações, devagarzinho, medo, delírio, motos, motores, velocidade, bicicleta, triciclo, bola quadrada, bola redonda, carnaval, Pierrot, Colombina, ressaca, quarta-feira de cinzas, sexta-feira da paixão, sábado de aleluia, sábado morto, terça-feira crônica, segunda-feira brava, domingo sangrento, domingo pé de cachimbo, quintaneja, que nojo, rock e bossa eu prefiro, chuva, sol, vento, brisa, mar, céu, nuvens, estrelas, amores, paixões, ódios, tiros, bala perdida, violência, solidão, flores amarelas, flores do caixão, cheiro de flores na morte, flores no canhão, travestis, heterossexuais, homossexuais, bichas, lésbicas, gays, machões, machinhos, homens, mulheres (de novo), gostosas, por quê não, filhos, pais, mães, irmãs, família, casa, apartamento, goteira, torneira, banho quente, vida, morte, severina, celestina, bizantina, margarina, as meninas, eu, eu mesmo, Irene, você, nós, todos, eles, mais ninguém, enfim, cabe sempre alguém. Ufa. Sejam bem-vindos.

Agora é a vez de vocês! Apresentem-se. Quem comentar no post inaugural do blog vai concorrer a uma surpresa literária!

* Observação: não reparem a bagunça.  Ainda estamos arrumando a casa. Prometo, dentro em breve, uma fachada melhor para o blog.

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