Wilame Prado



Sonhei com o Chico Xavier

Por Wilame Prado

queria fazer literatura
pós-moderna
mas leio no meio&mensagem que
não existe cara foda no stories
com mais de 30
nunca soube mexer no Snap
há um choque de geração
nasci em 1985
uma menina do ano de 1995
já não liga mais a TV
como a gente
fica no escuro
deixando-se iluminar
pela tela do celular
pelo mundo na palma da mão
o passado parece mais
não valer um tostão
voltemos às cadeiras de balanço
alpendres frescos numa tarde outonal
e sonecas de duas horas após
o almoço
e ela atualiza
comunica
se trumbica
convivências assépticas
e distante dos
dramas existenciais
graças a Deus
sonhei com relógios
que precisam ter
os ponteiros alterados
e agora o tempo mudou
histórias que se apagam
em vinte e quatro horas
vídeos de quinze segundos
mais de duzentas visualizações
uma curiosidade
também sonhei com Chico Xavier
o que isso significa?
talvez apenas mais um vulto
do passado
invadindo o presente
só em sonho
passados não têm futuro
a menina de 1995
pouco tinha ouvido falar
de Chico Xavier.

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Urubus na Zona 3

Wilame Prado
Agosto de 2015

Nunca saberemos ao certo de onde viemos e para onde vamos. Talvez seja melhor assim. Somos um pacote mal engendrado de costumes, tradições, culturas, rituais e manias. Viver é colecionar acontecimentos e sentimentos para, depois, no fim, morrer sem tirar muito proveito desta experiência.
Meu pai morreu aos 49 anos, em 2007. Descobri também que não sou pai. Perdi meu filho, que havia completado três semanas de vida dentro da barriga da mãe dele. Voltei para casa enquanto ela realizava um procedimento de curetagem. Uma espécie de colher metálica tirando do útero o resto de vida. Estava na sacada quando voltei a ver aquele enorme urubu pairando no ar. Ele insiste em trafegar pelo meu bairro, distante das zonas rurais, mas próximo de um parque ecológico. Não sei o que leva aquele urubu sobrevoar por entre prédios e casas da Zona 3 de Maringá.
A carniça, no entanto, está em todo lado. No jeito como as pessoas tratam as outras. Na política. Na CBF. E muito provavelmente na Zona 3 de Maringá. O urubu vai embora e preciso voltar ao hospital, onde visitarei uma paciente sem flores nas mãos, sem parabéns a desejar. Perdemos nosso filho, mesmo sem nunca sequer ter ouvido o batimento de seu coração.
Na primeira ultrassonografia, vi no semblante do médico que algo havia dado errado. Massas de cores acinzentadas foram as únicas imagens geradas num vexatório exame cujo outro homem introduz em sua mulher um objeto fálico, devidamente encapado com preservativo.
Naquele dia as temperaturas caíram no fim da tarde. Depois do exame, tive de voltar ao trabalho. Sem conseguir sequer olhar para os lados, com uma enorme pressão que parecia macetar meu cérebro, conclui rapidamente meus compromissos profissionais. No caminho de volta, senti o frio mais horripilante da minha vida: o frio da solidão dos derrotados. As lágrimas jorraram de minha face. Algumas pessoas testemunharam aquela cena grotesca: um homem barbado, em cima de uma moto, chorando copiosamente e seguindo o caminho.
É isso o que fazemos quando perdemos um filho: continuamos caminhando. Não tem o quê fazer. A depressão invade até a mais ínfima teia de aranha que se formou num canto obscuro do apartamento. Nessas horas, todos as pessoas do mundo – menos você – recebem a notícia de que serão pais, todas as propagandas são sobre xampus para bebês lindos que se divertem no banho.
Os conhecidos tentam um consolo. Procuram elencar os vários casos que têm conhecimento sobre gravidez interrompida por amigos, pais, parentes, irmãos, colegas, vizinhos, personagens de televisão. Poxa vida. Não é igual. Obrigado pelo consolo, mas não é igual, não é comum.
Não adianta, senhora obstetra, vir me dizer que, hoje em dia, 20% das gestações sofrem aborto espontâneo. O sofrimento individual não se ameniza com estatísticas.
Que se dane o mundo, a CBF, a Lava Jato, o urubu, a Zona 3. O sofrimento do mundo inteiro é menor que o meu. Eu perdi um filho. Eu perdi um pai. Os dias passam. A gente vai morrer. Todo mundo. Nunca saberemos ao certo de onde viemos e para onde vamos. Somos um pacote mal engendrado de costumes, tradições, culturas, rituais e manias. Talvez seja melhor assim.

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Retardatário

 

Por Wilame Prado

A vida real é sua maior aventura. Diz o slogan do Jeep Renegade. Carro que persigo há algum tempo. Pelas ruas, avenidas, rodovias. Até em outras cidades. Minha maior aventura já foi a vida real. É que preciso te encontrar. Falar o que senti. Tira, então, o pé do acelerador. Nem de perto consigo chegar. Você desliza pelo asfalto. Com seu Jeep preto. Com as suas coisas no banco de trás. Com a sua musiquinha no volume nem tão alto assim. Posso ver seus olhos diante do retrovisor. Lembrar, pelo menos. Sua beleza era tanta para comprar pão na padaria. Nunca pude entender suas manias. Até que tive ousadia. Disse que seria minha. Simples assim. Logo, aprendi que objetificava uma vida. Não há laço, vínculo ou relação. Com quem só quer correr na pista. Ir para frente. Esperar o sinal abrir. E sumir. Sua maior aventura foi o caminho que seguia. Nunca te alcancei. Um azarão da corrida. Ruim de volante. Medroso no velocímetro. E você corria, corria. Hoje não corre mais. Não se mexe mais. Não volta mais. Sigo lhe procurando. Perseguindo Jeeps Renegades pretos. Alucinado no autoengano. Entrando em confusão. Sendo chamado de ladrão. Pedindo perdão. Com a cara no chão. Nunca pude entender acidentes de trânsito. A violência. A vida num segundo. O choque. Ferragens retorcidas. Design terrorista. A mais bela aventura. Lançamento do ano. Modelo amassado. Airbags já acionados. ABS desperdiçado. E sangue no asfalto. Vida real. Você não é mais real. Nunca foi. Ia além. Mãos no volante. Pé no acelerador. Olhos no retrovisor. A mais bela das motoristas. Sigo a procurar este seu olhar. Mas sempre estou atrasado.

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Vinte minutos, uma vida

Por Wilame Prado

O escritor paulista Daniel Galera contribuiu satisfatoriamente com a história recente do Brasil no romance “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 34,90). Como poucos na literatura contemporânea, explorou o contexto online brasileiro, do advento da internet em 1995 até janeiro de 2014, tempo vivido pelos personagens do livro, a partir do assassinato de Andrei Dukelsky, conhecido por Duque.

Na trama, Duque fora um dos criadores do fanzine digital Orangotango (inspirado no verídico Cardosonline, o qual Galera fez parte), vindo a se tornar realmente escritor. Aurora, Emiliano e Antero – amigos dele, também colaboradores do fanzine nos idos de 1999 – são os narradores em primeira pessoa de “Meia-Noite e Vinte”, todos abismados com a morte banal daquele que prometia ser um dos grandes escritores brasileiros.

Em cada capítulo, uma voz diferente. Primeiro, Aurora: doutoranda em Biologia que conheceu o pessoal do fanzine quando fazia Jornalismo e que, principalmente após a morte de Duque e após uma negativa numa apresentação acadêmica, se vê inserida na espiral do pessimismo dos tempos de agora, a qual lhe faz pensar no fim do mundo. Depois, Emiliano, jornalista freelancer mais velho, gay e que está incumbido de escrever uma biografia do amigo escritor morto. Por fim, Antero, um exótico inteligente da área de Humanas que, mais velho, casado e com filho, acaba ficando rico com o passar dos anos após fazer sucesso com a sua agência de publicidade.

Daniel Galera consegue convencer ao propor três modos diferentes de contar uma história cheia de pontos em comum, sempre direcionada à vida e obra de Duque. O contexto do romance se destaca mais que a história principal: a de três amigos que se reencontram numa Porto Alegre real e terrível – verão escabroso, fedida e cheia de greves – para um velório.

“Meia-Noite e Vinte” não é sobre amizade, porém: é sobre internet, hábitos de uma geração que começou com o ICQ e chegou ao WhatsApp e aos chats pornográficos, os perigos da literatura em meio ao que é banal e principalmente sobre o tempo que escorre das mãos, todos ficando velhos e cansados, mas ainda tão próximos e nostálgicos da época da juventude, da virada do milênio, anos 2000.

A história se aproxima do leitor porque, arrisco dizer, o leitor de Galera viveu boa parte daquilo narrado por Aurora, Emiliano e Antero. Ler “Meia-Noite e Vinte” é como ler a sua própria história recente, sentindo saudosismo e ao mesmo tempo refletindo amargamente o quanto tudo parece estar cada vez pior – ainda que com as facilidades flagrantes de uma vida pós-moderna que se esgota quase que inteiramente olhando para uma tela de smartphone.

É como se tivéssemos perdido a noção do tempo e, também, a queima de fogos tradicional da virada de ano, na meia-noite. Passaram-se vinte minutos, uma vida se passou.

ESTANTE
MEIA-NOITE E VINTE
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço sugerido: R$ 34,90

*Resenha publicada no caderno Cultura do Diário em 24 de fevereiro de 2017

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Julgamento do século na Netflix

Grande elenco em “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story”

Por Wilame Prado

A série estreante mais assistida de 2016 chegou semana passada na Netflix. “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story” (do canal pago FX) narra, em dez capítulos, aquele que foi intitulado pela mídia como o julgamento do século.
O ano era o de 1994 e o caso é do ex-jogador de futebol americano Orenthal James Simpson, acusado de ser o responsável pelo brutal assassinato da ex-mulher e de um amigo dela.
Composta por atores brilhantes – como Cuba Gooding Jr., Sarah Paulson, Courtney B. Vance e John Travolta –, a série surpreende pela capacidade de dinamismo. Em meio a incontáveis cenas de tribunal, em capítulos longos, com cerca de uma hora, em nenhum momento leva quem está assistindo ao tédio.
A típica série em que não se consegue parar de ver até o desfecho.
Com a proposta de narrar casos reais e famosos no mundo todo, os criadores de “American Crime Story” corria um grande risco: afastar o público em razão dos spoilers. Pelo menos nesta primeira temporada, isso não ocorreu: talvez tirando os espectadores mais jovens, muita gente ainda se lembra do desfecho do julgamento de Simpson, concluído apenas em 1995, após mais de 350 dias de julgamento. No entanto, não é o fim que importa e sim o desenrolar dos fatos, além dos fascinantes bastidores do poder.
Direito e mídia
Assistir a esta primeira temporada é exercício para se tecer sérias reflexões sobre o Direito, o Jornalismo, a “espetacularização” dos julgamentos e a criação de heróis envoltos à fama alcançada pelos esportes e pela televisão.
Além disso, “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story” relembra o racismo contra negros nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, a força da coletividade da comunidade negra daquele país. Enfim, série muita bem produzida e que trata de assuntos importantes da história recente mundial.
A série recebeu 22 indicações no Emmy, levando cinco estatuetas na premiação. No Globo de Ouro, foi indicada cinco vezes, vindo a faturar dois prêmios. Outras três temporadas de “American Crime Story” estão garantidas pelos produtores.
O segundo ano da série vai focar nos acontecimentos do furação Katrina, o qual gerou quase duas mil mortes em Nova Orleans e no sul da Flórida em 2005. A terceira temporada focará em Gianni Versace, estilista da alta costura italiana que foi assassinado pelo gigolô Andrew Cunanan em 15 de julho de 1997. E a quarta temporada contará a famosa história do escândalo envolvendo o ex-presidente dos EUA Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky.

*Texto publicado em 10 de fevereiro no caderno Cultura, do Diário

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Coluna Estante – Nakasato no Enem, Drummond, Assunção, Rebinski e prêmios literários

Por Wilame Prado

NAKASATO NO ENEM Quer ir bem no Enem? Leia mais! Uma das questões da prova aplicada no último fim de semana foi referente à “Nihonjin”, romance do maringaense Oscar Nakasato.

PAI O jornalista da CBN Maringá Victor Simião descobriu que a própria filha do Nakasato, a Tama, 15, fez o Enem e achou a questão envolvendo o livro do pai um tanto complexa. Na questão, havia um generoso trecho de “Nihonjin”.

DRUMMOND DEU AVAL O escritor de Londrina e radicado em São Paulo Ademir Assunção mostrou antigo cartão esta semana em seu Face. Nele, Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros, elogiava material literário de Assunção. O cartão é de 30/11/1983: relíquia.

PIG BROTHER Por falar em poesia e por falar em Ademir Assunção, o seu ótimo “Pig Brother” (Patuá) é finalista do Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Li e recomendo.

CÁLCULO POÉTICO E ainda sobre Drummond, vale a leitura da reportagem da revista piauí de outubro sobre Manolo, genro argentino do poeta que deixou livro inédito sobre as rimas e métricas drummondianas. Nos cálculos de Manolo, Drummond escreveu 38 mil versos, dos quais apenas 13,66% eram rimados.

ESTREIA O jornalista curitibano Luiz Rebinski Junior, da Biblioteca Pública do Paraná, estreará na literatura. O romance “Um Pouco Mais ao Sul” (edição própria) será lançado em Curitiba no dia 19 de novembro.

PRÊMIOS Até 30 de novembro, estão abertas as inscrições para o Prêmio Kindle de Literatura, na categoria Ficção/Romance. Vencedores receberão R$ 20 mil. Mais informações: www.amazon.com.br.

PRÊMIOS II E nas categorias Conto, Poesia e Literatura Infantojuvenil, estão abertas – até 12 de dezembro – as inscrições para o Prêmio Off Flip, que oferta aos escribas agraciados R$ 30 mil em dinheiro, além de residência literária em Paraty. Regulamento: www.premio-offflip.net.

*Coluna Estante sai às quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Coluna Estante – Sobre Tezza

Por Wilame Prado

EM ALTA Cristovão Tezza, que mora em Curitiba, está com agenda cheia. Ele tem lançado pelo País o seu mais novo romance, “A Tradutora”.PONTE AÉREA O autor do premiadíssimo “O Filho Eterno” estava ontem em SP, mas retornaria hoje a Curitiba.

E MARINGÁ? A última vez que Tezza esteve em Maringá foi em 2010, pela Semana Literária do Sesc, atração que infelizmente não foi realizada este ano na cidade.

BEATRIZ DE VOLTA Em “A Tradutora”, a personagem Beatriz está de volta. Ela é a mulher pelo qual o escritor Paulo Donetti admite que cometeu um chamado erro emocional, o de se apaixonar por ela, no romance “Um Erro Emocional”, de 2010. A personagem também já foi usada em um conto antigo do catarinense e ex-professor da Universidade Federal do Paraná.

IMAGINE NA COPA A nova história de Tezza é passada em Curitiba, onde a tradutora Beatriz topa ser intérprete de um dirigente da Fifa que chega à cidade para a Copa do Mundo de 2014. Ela também está em meio a uma tradução de um livro catalão e, claro, em contato com o persistente Donetti, que, agora, solta uma dessas: “Não me deixe, preciso da minha leitora pela última vez”.

CRÍTICA GOSTOU Ainda não li “A Tradutora”. Preciso, antes, ler “O Professor”, romance de Tezza lançado em 2014. Mas li algumas críticas, como a de Vanessa Ferrari, da Folha, que avaliou “A Tradutora” como “Bom”.

MODERNIDADE LÍQUIDA Este trecho da crítica da Vanessa me instigou ainda mais a ler “A Tradutora”: “Há no romance a modernidade líquida de que fala Zygmunt Bauman, em que tudo evapora, está fragmentado e perde o sentido muito antes de se consolidar.”

NOITE EM CURITIBA Para fechar o papo sobre Tezza, lembro até hoje da expectativa que tinha em ler a obra mais comentada entre as catalogadas para o vestibular da UEM, o tocante “Uma Noite em Curitiba”, romance que estimulou muita gente a se interessar pelo universo literário. Valeu, Tezza!

*Coluna Estante sai às quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Coluna Estante – Cunha escritor e Temer poeta

ÓCIO CRIATIVO Na cadeia, o político Eduardo Cunha (PMDB-RJ) terá bastante tempo para finalizar o livro que disse estar escrevendo.NOVO IMORTAL? Após ter o mandato cassado por 450 votos, Cunha fez o importante comunicado ao universo literário: está escrevendo um livro sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

LETRAS DE TEMER Poucos sabem, mas o presidente Michel Temer (PMDB) tem vários livros publicados, principalmente na área do Direito. Alunos do curso da UEM, inclusive, já estudaram obras dele.

POESIA ESTÁ NO AR Temer também já se permitiu alguns versos. “Anônima Intimidade”, com poemas do presidente, saiu pela TopBooks em 2012.

IMPEDIDO Quem leu “Anônima Intimidade”, garante: apenas um dos poemas de Temer já seria motivo para o impeachment do paladino das letras.

TÔ PASSADO Tire suas próprias conclusões lendo o poema “Passou”, de Temer:
Quando parei
Para pensar
Todos os pensamentos
Já haviam acontecido.

MOMENTO DE REFLEXÃO Ou, então, o poema “Pensamento”:

Um homem sem causa
Nada causa.

O ÚLTIMO, PROMETO O poema “Saber”, do Temer, foi premonitório se relacionarmos ao episódio do impeachment da Dilma. Leia:

Eu não sabia.
Eu juro que não sabia!

SEJA UM BEST-SELLER Saiu uma pesquisa, a “The Bestseller Code”, com vários passos para escrever um livro de sucesso. Eis alguns: 1-Uma heroína jovem, forte e levemente desajustada; 2-Intimidade sim, sexo não; 3-Evite pontos de exclamação!; 4-Cachorros são melhores do que gatos; 5-Finais tristes estão liberados e são ótimas deixas para uma série. Partiu escrever?

*Coluna Estante sai às quintas no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Cinuem retorna em grande estilo

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Por Wilame Prado

Maringá volta a ter mais uma opção que oferece cinema de qualidade longe dos circuitos comerciais das redes localizadas nos shoppings. O projeto Cinuem, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM, retomou as atividades após alguns meses sem oferecer sessões de cinema dentro do campus.

Com a Mostra Cinema Brasileiro Contemporâneo: Emergências da Política, iniciada há uma semana, o Cinuem volta a exibir filmes todas as quartas-feiras, pontualmente às 19 horas, na Sala 1 do Bloco A34, na UEM, sempre com entrada franca. O projeto é aberto a toda comunidade e não apenas a estudantes universitários.

O cartaz de hoje do Cinuem é o filme brasileiro “Orestes”, dirigido pelo mineiro Rodrigo Siqueira (“Terra deu, terra come”) e vencedor do Prêmio APCA como melhor documentário de 2015.

“Orestes” combina elementos documentais e ficcionais para jogar luz a dois problemas atuais da sociedade brasileira: a memória e a herança do regime militar de 1964 e a violência policial sentida principalmente pelos pobres e pelos negros. Quando do lançamento, ano passado, a crítica relacionou o filme aos ataques ocorridos em Osasco, na grande São Paulo.

Siqueira recorre à mitologia grega – mais precisamente às peças teatrais de Ésquilo – para criar analogias no documentário. Na tragédia grega, Orestes mata a mãe para vingar a morte do pai, o rei Agamemnon, e ganha um voto de minerva após decisão do júri formado por cidadãos atenienses.

No Brasil contemporâneo do diretor mineiro, Orestes é um personagem fictício que mata o pai – um torturador brasileiro anistiado em 1979 e assassino da mãe do seu filho – e que será submetido a um julgamento simulado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Entre os casos reais citados em “Orestes”, algumas vítimas da ditadura militar são entrevistadas, como Ñasaindy Barrett Araújo, filha da guerrilheira comunista Soledad Barrett Viedma que foi assassinada em 1973 após emboscada tramada por José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, ex-companheira de Soledad.

A crítica de cinema Eleonora de Lucena descreveu “Orestes” como um filme original e provocativo. “Mesclando documentário, psicodrama e encenação, o diretor mexe com a plateia: cria tensão, incômodo”, escreveu ela, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2015.

Retomada
A retomada do Cinuem sempre foi desejo da PEC da UEM, mas estava parado desde que a professora Fátima Neves havia se desligado do projeto, no ano passado. Com a chegada da professora Cristiane Lima à universidade, o Cinuem ganhou sobrevida.

Ela, que veio de Belo Horizonte (MG), chegou como professora colaboradora para lecionar no curso de Comunicação e Multimeios. Com mestrado e doutorado na área de Cinema, definiu com o setor cultural da UEM o retorno do projeto.

Cristiane diz pretender aproximar o Cinuem dos alunos do curso de Comunicação e Multimeios. “A ideia é que eu coordene um grupo de curadoria, composto por alunos e ex-alunos do curso, para definir a programação dos filmes no projeto e também colaborar durante os encontros com explanações acerca das obras apresentadas”, diz ela.

Outro desafio será conseguir os filmes para as exibições, já que, agora, a proposta do Cinuem é levar ao público filmes recentes e premiados. Para isso, Cristiane se utilizará de seus contatos, amigos e conhecidos da área.

“Nesta primeira mostra de filmes brasileiros, consegui autorização dos próprios diretores para conseguir o filme ou então baixá-los”, conta ela, que finaliza: “O Cinuem permite essa abertura da universidade para a comunidade externa, e a gente acha que, desta maneira, promovemos a cultura no âmbito da cidade de Maringá.”

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (25) no caderno Cultura, do Diário

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