Zona 3



Urubus na Zona 3

Wilame Prado
Agosto de 2015

Nunca saberemos ao certo de onde viemos e para onde vamos. Talvez seja melhor assim. Somos um pacote mal engendrado de costumes, tradições, culturas, rituais e manias. Viver é colecionar acontecimentos e sentimentos para, depois, no fim, morrer sem tirar muito proveito desta experiência.
Meu pai morreu aos 49 anos, em 2007. Descobri também que não sou pai. Perdi meu filho, que havia completado três semanas de vida dentro da barriga da mãe dele. Voltei para casa enquanto ela realizava um procedimento de curetagem. Uma espécie de colher metálica tirando do útero o resto de vida. Estava na sacada quando voltei a ver aquele enorme urubu pairando no ar. Ele insiste em trafegar pelo meu bairro, distante das zonas rurais, mas próximo de um parque ecológico. Não sei o que leva aquele urubu sobrevoar por entre prédios e casas da Zona 3 de Maringá.
A carniça, no entanto, está em todo lado. No jeito como as pessoas tratam as outras. Na política. Na CBF. E muito provavelmente na Zona 3 de Maringá. O urubu vai embora e preciso voltar ao hospital, onde visitarei uma paciente sem flores nas mãos, sem parabéns a desejar. Perdemos nosso filho, mesmo sem nunca sequer ter ouvido o batimento de seu coração.
Na primeira ultrassonografia, vi no semblante do médico que algo havia dado errado. Massas de cores acinzentadas foram as únicas imagens geradas num vexatório exame cujo outro homem introduz em sua mulher um objeto fálico, devidamente encapado com preservativo.
Naquele dia as temperaturas caíram no fim da tarde. Depois do exame, tive de voltar ao trabalho. Sem conseguir sequer olhar para os lados, com uma enorme pressão que parecia macetar meu cérebro, conclui rapidamente meus compromissos profissionais. No caminho de volta, senti o frio mais horripilante da minha vida: o frio da solidão dos derrotados. As lágrimas jorraram de minha face. Algumas pessoas testemunharam aquela cena grotesca: um homem barbado, em cima de uma moto, chorando copiosamente e seguindo o caminho.
É isso o que fazemos quando perdemos um filho: continuamos caminhando. Não tem o quê fazer. A depressão invade até a mais ínfima teia de aranha que se formou num canto obscuro do apartamento. Nessas horas, todos as pessoas do mundo – menos você – recebem a notícia de que serão pais, todas as propagandas são sobre xampus para bebês lindos que se divertem no banho.
Os conhecidos tentam um consolo. Procuram elencar os vários casos que têm conhecimento sobre gravidez interrompida por amigos, pais, parentes, irmãos, colegas, vizinhos, personagens de televisão. Poxa vida. Não é igual. Obrigado pelo consolo, mas não é igual, não é comum.
Não adianta, senhora obstetra, vir me dizer que, hoje em dia, 20% das gestações sofrem aborto espontâneo. O sofrimento individual não se ameniza com estatísticas.
Que se dane o mundo, a CBF, a Lava Jato, o urubu, a Zona 3. O sofrimento do mundo inteiro é menor que o meu. Eu perdi um filho. Eu perdi um pai. Os dias passam. A gente vai morrer. Todo mundo. Nunca saberemos ao certo de onde viemos e para onde vamos. Somos um pacote mal engendrado de costumes, tradições, culturas, rituais e manias. Talvez seja melhor assim.

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Noite do casal

Por Wilame Prado

Prédio um tanto antigo, daqueles de cômodos maiores, zona 3 de Maringá, Rua Neo Alves Martins, lua cheia, leve chuva fina. O casal é casal pelo que se pode ver na visão dos dois na janela do alto do quarto andar. Faz alguns minutos, parecem preparar algo na cozinha. Um risoto suculento? Um rápido strogonoff? Alguma massa saborosa, quem sabe acompanhada de um bom tinto?

O casal se faz casal. Os dois se beijam, ficam abraçados, se mexem, se tocam, se dispõem ao contato físico e amoroso. Já passa das onze da noite e apostam na gastronomia, em plena segunda-feira. Mas é que é tão bela a lua cheia! Mesmo em fevereiro, o calor deu trégua, pelo menos à noite, e uns ventos batem obrigando-os a recorrer a um lençol fino, no sofá, após o vinho e a comida, juntinhos, assistindo a mais uma tola tela que se diz quente, não importa o filme, o importante é a companhia.

Recém-casados? Ou uma recém-formada em Farmácia – que ainda conta com mesada dos pais – recebendo a visita do namorado em plena segunda-feira simplesmente pelo fato de terem quase morrido de saudades após menos de 24 horas longe um do outro?

Tinham passado o domingo inteiro juntos, shopping, cinema, sorvete, champanhe e motel. Mas nada disso importa mais. O importante é que ela finalmente conseguiu o ponto certo do macarrão – al dente – e ele trouxe aquele vinho maravilhoso.

E ela pensa: deixe as 7h15 só para a manhã de amanhã, para depois o retrabalho levado para casa, para outra segunda a faxina do apê e para outra noite aquela boa pesquisa na internet em busca de uma pós-graduação decente.

E ele reflete: nesta noite, nada de academia, treino de Muay thai, programas na TV de discussões tolas sobre a última rodada do campeonato, futebol society com a turma de colegas do tio, pôquer com os amigos, Pro Evolution Soccer no videogame dos primos, cachorro-quente prensado na Colombo, conversa com pais e avós todos sentados em cadeiras de área ou, não menos importante, aulas chatas de Cálculo II na universidade.

O clima está gostoso, a lua está no céu e, ainda que recatada, ela até que gosta de se ver assediada por ele, que nem quer esperar o jantar para levantar a blusinha dela, na janela da cozinha mesmo, do alto do quarto andar, enquanto gente na sacada dos prédios ao redor vê tudo isso. E de tudo isso, nada importa. Afinal, acho que eles se amam.

Naquela noite choveu uma leve chuva fina em Maringá. E o casal de namorados nem imaginava, mas, por entre o fino lençol, no sofá da sala, sem nem perceber que o filme já tinha acabado, estavam os dois gerando aquele que seria o primeiro filho de uma linda família.

*Conto publicado nesta terça-feira (25) na coluna Crônico, do caderno Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Nostalgias na Avenida Brasil

Uma vez, parei para pensar na saudade que sentia de alguns acontecimentos vividos. Não parei mais. Virei um nostálgico. Especialista na melancolia dos sentimentos gerados graças às lembranças. Dizem que isso é comum. Sintoma dos anos que passam. Característica eminente para quem já enfrentou décadas de invernos. Mas nunca revelo minha idade. Prefiro manter o charme da dúvida causada pela unção entre um sorriso de menino que nunca se perde e um punhado de fios de cabelos brancos na cabeça.

Fazia calor naquela tarde absolutamente corriqueira de um típico e entediante começo de ano. Maringá continuava sendo a mesma, e isso parecia acontecer há séculos mesmo a cidade estando prestes a completar só 66 anos. Como sempre, ocupava meus fins de tarde e começos de noites em caminhadas pela Avenida Brasil, palco revelador para o antiquado que se mistura ao moderno. Isso depende de que ponto se está de uma das mais movimentadas avenidas maringaenses. Dependendo da hora e do dia, aquele amplo rio de asfalto, intercalado com faixas de pedestre, semáforos, canteiros, lojas, casas e árvores, também pode ser totalmente transfigurado.

Mas, como disse, estava caminhando, com meu tênis vermelho e branco, cheio de amortecedores, comprado só para fazer caminhadas, no período da tarde. O meu relógio esportivo, sem ponteiros, com tecnologia digital, informava 16h47. Era um período interessante. E, como todos os momentos da minha vida, no mínimo nostálgico.

Quase fui atropelado na calçada, na altura da Zona 3, por alguns pedestres no momento em que me perdi em pensamentos voltados para o tempo do passado enquanto olhava, admirado, para um móvel antigo de madeira em uma das dezenas de lojas de móveis usados na Avenida Brasil. Inevitável, com o encontro do olhar naquele mogno escurecido, não se recordar das carteiras estudantis – com espaço para acoplar o lápis e a caneta sem deixá-los cair no chão – dos tempos primários do colégio de freiras. Com o estilete agredindo a madeira, um dos primeiros pecados, um dos primeiros crimes: “W… e Gabriela” dentro de um mal traçado coração.

A quentura daquela tarde me desviou do caminho gastronômico mais comum na Pão Brasil. Nada de café preto sem açúcar e um pão de queijo generoso. Preferi um suco de laranja, também sem açúcar e com pedras de gelo. Sempre sobra uma quantidade de suco que faz encher um copo americano extra daquele líquido amarelo e refrescante. Tinha certeza que a gripe não me afetaria naquela semana abafada justamente pelos sucos e também pelas vitaminas de morango com leite. Tarde nostálgica que só, aquela. Foi justamente pelo cheiro da laranja que me senti obrigado a passar deliciosos quatro minutos olhando fixamente para a parede engordurada da padaria e, involuntariamente sem responder à pergunta da querida Margarete “não vai comer nada hoje W…?”, voltei, como num passe de mágica, àquela tarde nem tão quente de sábado em que, ao lado dos primos, chupei mais de meia dúzia de laranjas baianas, todas precisamente descascadas pelo velho avô e seu canivete de estimação. Uma maneira de atrair pela boca os netos para bem perto dele, naquela área, naquele imenso quintal de lajotas vermelhas, na cidade pequena.

Depois de pagar com notas novinhas de R$ 2, que tinha saído recentemente do caixa eletrônico logo ali na outra quadra daquela avenida tão querida por mim, recordei-me do dia em que, ainda criança, fiquei orgulhoso depois contando para minha mãe que havia notado o troco errado na padaria e devolvido dinheiro após comprar o meu sagrado Chicabon. O sol estava caindo do céu, e, de um minuto para o outro, as pessoas começavam a brotar na Avenida Brasil, todas com pressa para tirar o carro do estacionamento, para não perder o ônibus coletivo que passa velozmente pelos pontos e para fechar as portas metálicas do comércio e assim ceifar minhas memórias avivadas pela madeira, pela fruta, pelo cheiro, pelo olhar.

Nada de desespero. Outras gavetas nostálgicas da memória seriam facilmente abertas com o início da escuridão, caminhando alguns quilômetros para frente, sentido Maringá Velho, o amarelo forte das luzes das farmácias, a lua lá no céu e os faróis dos veículos acessos iluminando meu caminho. Uma leve garoa começava a cair na Avenida Brasil e alguns cuidadosos pedestres sabiamente abriam seus guarda-chuvas negros para se protegeram da água fria.

*Crônica publicada no D+, do Diário de Maringá.

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