A família: tempos difíceis

O Diário na Escola entrevista esta semana a psicóloga que está sendo considerada uma sumidade quando o assunto é comportamento e relacionamento familiar, e o currículo não é pequeno. Conhecida do público por participar do Divã do Faustão (quadro do Programa O Domingão do Faustão), em que faz uma análise de acontecimentos de grande repercussão social, Elizabeth Monteiro é autora das obras; “Criando filhos em tempos difíceis – Atitudes e brincadeiras para uma infância feliz” (livro esgotado a ser relançado em abril), “Criando adolescentes em tempos difíceis” e da mais recente obra: “A culpa é da mãe – Reflexões e confissões acerca da maternidade” (que já está em sua terceira edição).

Para Betty, como gosta de ser chamada; escrever é uma forma de falar com o outro além das paredes de seu consultório. “Não nasci somente para saborear a vida, mas para deixar uma parcela de contribuição daquilo que sei, àqueles que necessitam”, desabafa.

Pedagoga especializou-se em Psicopedagogia, tendo em seguida se formado psicóloga. Assim como a rotina de muitas mulheres hoje, ao mesmo tempo em que estudava e trabalhava, ela cuidava da família. Casada há quarenta anos com seu primeiro namorado, tem quatro filhos e, até agora, quatro netos.

Atriz e modelo nas horas vagas, Betty trabalha em seu consultório particular, na cidade de São Paulo, atendendo crianças, adolescentes e adultos.

Estuda a História Antiga, viaja em busca de novos conhecimentos – especialmente sobre o homem e outras culturas – fala três idiomas e dá palestras e cursos por todo o País.

Em nosso bate-papo ela falou sobre as relações familiares, as dificuldades enfrentadas por pais e filhos, e as possíveis soluções para esses problemas que afetam a grande maioria das famílias.

1 – Antigamente os três pilares da formação do indivíduo eram a família, a escola e a religião. Hoje, as crianças têm acesso à internet e passam horas expostas em frente à TV recebendo diversas informações. Podemos considerar que a mídia passou a fazer parte desse pilar também?

Elizabeth: Penso que era muito mais fácil educar quando a educação era sustentada pelos três pilares: família, escola e religião. A família buscava a escola e a religião que tinham a sua mesma filosofia de vida, os mesmos valores e crenças, para dar continuidade à educação que desejavam passar aos filhos. Havia coerência. Hoje, a mídia invade os lares e muitas vezes os pais não têm o mínimo conhecimento daquilo que está sendo passado aos seus filhos, jovens e crianças em formação e altamente vulneráveis a qualquer tipo de informação. A mídia é um instrumento que leva ao conhecimento, mas não à sabedoria. Os pais precisam saber quais são os sites acessados pelos filhos, os programas que assistem e assistir TV com os seus filhos, para elaborar com eles as cenas de violência, sexo e morte.  Devem elaborar também o noticiário e proibir certas programações. Em lares onde não existe a vigilância, o diálogo, a presença participativa dos pais, e o desenvolvimento do espírito crítico, a mídia acaba educando. Isso é muito nocivo e perigoso. O pior é que é muito cômodo largar as crianças em frente à TV, expostas a qualquer tipo de cena e de informação. Criança submetida a cenas que estão acima de seu nível de desenvolvimento, são crianças abusadas. O abuso não é somente aquele que a criança sofre sexualmente, mas toda a forma de exposição violenta, em que a criança está sujeita. Também não basta proibir a TV. Os pais precisam oferecer uma outra opção. Ex: Filho, desligue a TV e vamos montar uma casinha com estas caixas de papelão.

2 – Ainda comparando tempos passados com atualidade, percebemos uma mudança no processo educacional familiar. Há cerca de 40 anos a comunicação entre pais e filhos era mais restrita, o pai falava e o filho obedecia. Hoje, isso tem mudado, pais e filhos têm maior interação, e as crianças e adolescentes questionam bastante as ordens que recebem. Qual a sua opinião sobre essa questão?

A diferença entre as duas épocas está no fato de que há anos atrás, os pais tinham papeis bem definidos: ao pai cabia trabalhar e prover a casa, à mãe cuidar da casa e dos filhos. A família era nuclear e patriarcal: pai mãe e filhos.  E o pai era a autoridade. Hoje, as famílias passaram e ainda passam por várias mudanças e diferentes formações. O poder não é patriarcal, a mãe trabalha fora e os pais não sabem exatamente quais são os seus papeis. Hoje o filhiarcado impera e os pais terceirizam os seus filhos, porque não têm muito tempo para eles.

3 – Estamos nos aproximando da volta às aulas. Alguns adolescentes vão cursar o terceiro ano do ensino médio e se preparar para o vestibular. Qual o papel dos pais nessa fase da vida do filho em que este vai escolher a profissão que vai seguir?

A escolha da profissão é algo muito difícil de se fazer, para a maioria dos jovens. Eles mal sabem quem são!!! O papel dos pais, nesta fase, está em proporcionar o maior número de vivências e de informações possíveis ao jovem, o tranquilizando caso ele tema fazer a escolha errada. É bom lembrar que sempre é tempo de ser aquilo que não fomos. Os pais devem apoiar os filhos em suas escolhas e nunca, mas nunca, traçar um destino para eles, ou desejar que eles sejam aquilo que eles mesmos não conseguiram ser.

4 – A tragédia que ocorreu no último dia 27, em Santa Maria/ RS, chocou e mobilizou toda a sociedade. Sabemos que proibir os filhos de sair de casa não é o aconselhável. Que atitudes os pais podem tomar para prevenir seus filhos desse tipo de perigo como o incêndio ocorrido na boate Kiss?

Não dá para ficar tranquilo quando os filhos saem de casa. É fato! Uma simples e rotineira ida à escola pode se transformar em uma tragédia. Também não dá para viver repetindo as regras e os sermões e muito menos fazer vigilância por 24 horas. Prisão domiciliar? Nem falar!… Os pais devem conhecer os amigos dos filhos, os lugares que eles frequentam, os seus hábitos. Marcar horários para a chegada em casa, pedir que os filhos façam contato e, o mais importante: levá-los e buscá-los nas suas saídas. Há muito a fazer para preservar os nossos jovens: cobrar do governo políticas antidrogas, anticriminalidade, acesso à boa educação, saúde e possibilidades de trabalho para o povo. Os pais precisam investir também no conceito de cidadania familiar: pais presentes, cuidadosos, que sejam bons modelos, respeitem os seus filhos, se interessem por eles, os escutem, os eduquem, promovam encontros familiares e nunca os abandonem.

5 – Os pais estão mais tempo fora de casa, e com isso, muitos optam que a criança desenvolva várias atividades no dia; natação, escolinha de futebol, aulas de ballet e inglês. Você acha que essa é a saída para que os filhos tenham uma boa formação?

Hoje em dia é muito comum ver os pais encherem os filhos de atividades, para que ocupem o tempo que os mesmos estão sós, ou então para mostrar aos outros que o filho é o “bacana”. Mostrar aos outros que sabem educar e que o seu filho é o melhor de todos, nesta coisa competitiva pela busca do melhor status. Na verdade não estão preocupados com o filho, mas em desfilar o seu ego inflado. Atendo crianças já estressadas aos 6 anos, devido ao número de atividades. Aulas de inglês, natação, informática, ballet ou judô (só a natação não basta), psicóloga, dentista, e pasmem… aula de brincar… Os filhos não têm tempo livre para brincar sozinhos, para não fazer nada, ou para fazer com calma a lição de casa. Resultado: infância curta, sem brincadeiras e patologias sérias. É bom saber que o número de suicídio infantil aumentou muito nos últimos 5 anos.

6 – Críticas ouvidas durante a infância podem prejudicar o crescimento? Como um pai deve agir para que seu filho cresça sem baixa autoestima?

As críticas na infância podem prejudicar muito o ser que está em desenvolvimento. A criança e o adolescente não sabem quem são. É o adulto quem lhes diz quem são. Os rótulos são venenosos. Quando um adulto diz à criança ou ao jovem que ele é burro, insuportável, preguiçoso, ou malandro, está dando um papel para este ser. O filho tratado como um idiota, será um idiota na vida. Sua autoestima ficará tão baixa, que certamente será um alvo certeiro para ser influenciado pelos outros, andar com maus elementos usar drogas. Uma pessoa com a autoestima baixa, dificilmente será bem sucedida na vida. Existem pais que são incapazes de fazer críticas construtivas.

7 – Como os pais podem conseguir receber os amigos dos filhos em casa, sem serem invasivos, mas mantendo o controle?

É muito bom receber os amigos do filho em sua casa. Você sabe com quem ele anda e fica mais tranquilo. Porém, existem pais que não têm “simancol” e fazem o filho “pagar mico”. Por favor, não faça isso! É claro que você não deve sair de casa, mas deixe-os à vontade! Só aparece de vez em quando, para oferecer algo ou pegar alguma coisa. (Na verdade uma desculpa para você ver o que fazem). Afinal é bom manter “um olho no fogão e outro no gato!”

8 – Os pais lutam para não cometer com os filhos os mesmos erros de seus pais. Você acha que essa fórmula de educar funciona? Pais que receberam uma educação muito severa procuram ser mais liberais com seus filhos, e vice-versa?

Por mais que tentem, geralmente os pais não conseguem deixar de cometer os mesmos erros que os seus pais cometiam. Os pais exercem uma influência (positiva ou negativa) muito grande na vida e na formação dos filhos.  É muito bom ter consciência daquilo que não deve ser feito, mas errar é humano!

9 – Ainda existem pais que gritam e perdem a compostura para conseguir a atenção ou até mesmo a obediência do filho. Que conselhos você daria para eles terem firmeza na educação?

Educar com firmeza e com delicadeza: não discuta problemas se estiver nervoso; explique sempre os motivos das discussões; nunca diga ao seu filho que não gosta dele, mostre-lhe o comportamento que não gosta; mostre sempre o comportamento adequado, dando o seu exemplo: mentir faz mentir, enganar faz enganar, tripudiar faz tripudiar… jamais recorra a tapas, insultos ou palavrões. A gente colhe aquilo que planta. Considere sempre as opiniões e ideias de seu filho, mesmo que não concorde com elas. Nunca negue o que o seu filho sente. Mostre que você é capaz de compreendê-lo, embora pense e sinta de forma diferente. Crie momentos de intimidade com a família, para que ninguém se veja condenado a ter de teclar mensagens, para se comunicar. Se você tem pouco tempo para estar com a família, procure transformar estes momentos nos melhores momentos de suas vidas. Se sentir que errou, peça desculpas! Os filhos aprendem mais com os nossos exemplos do que com os nossos sermões.

10 – Depois do nascimento dos filhos, a maioria dos casais deixa de ter tempo livre para programas a dois. Isso pode interferir na relação e boa convivência de toda a família?

É claro que a chegada de um filho distancia o casal. Porém o casal deve se impor um tempo para o namoro, as viagens, as conversas, as saídas, os amigos e a intimidade. Muitas mães acabam virando mães de seus companheiros também, ou os deixam de lado. O casal precisa estar atento para não se acomodar e deixar o casamento em último plano.

2 comentários sobre “A família: tempos difíceis

  1. ANDREIA RIFF 6 de fevereiro de 2013 14:28

    Ouuuuuuuuuuuu…Não sabia deste espaço…Blog é a minha praia…Fui blogueira por 02 anos consecutivos…foi tudo…fiz grandes amizades virtuais e, por eu ser tão exibida, tão intensa, tão extremista…alguns vieram até o meu admirável RIO DE JANEIRO…só pra me conhecer, acredita?
    Muitos pensavam q. eu não existia, q. poderia ser fack…anônima..sei lá…Conquistei quase 300 seguidores de toda parte do MUNDO…Foi mágico…depois, em virtude de algumas decepções e falta de tempo…sou advogada e vivo pra lá e pra cá em audiência…Opetei por deletar meu amdado Blog…sou assim…Adorei e vou virar seguidora..já sou fanzona…Adoro………..

  2. Nayara Spessato 6 de fevereiro de 2013 15:20

    Oi Andréia,
    Ficamos muitos felizes com o seu comentário, será um prazer tê-la como nossa seguidora!
    Temos novidades toda semana, e estamos abertos à sugestões.

    Um abraço da equipe do Diário na Escola.

Deixe um Comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.