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04/03/2013 - 20h58 - visualizações

Crônicas e Contos....

Autor Vital Ben Waisermman

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DIA APÓS DIA
Há muitos anos, na Pérsia, havia um rei chamado Abbas. Era conhecido como um homem honesto e justo. Toda noite ele vagava pelas ruas da cidade, disfarçado, para assim conhecer melhor os seus súditos.

Certa vez, durante uma de suas andanças, notou uma pobre cabana. Ao olhar pela janela, viu um homem diante de uma refeição bem simples, cantando louvores a D'us. O rei bateu na porta e perguntou-lhe se aceitava um convidado.

"Um convidado é uma dádiva de D'us", disse o homem. "Por favor, sente-se e junte-se a mim". E, assim, repartiu sua refeição com o rei. Os dois conversaram por muito tempo. O rei perguntou-lhe como ganhava a vida.
"Sou sapateiro", respondeu o homem, "caminho o dia inteiro consertando os sapatos do povo. E, à noite, compro comida com o dinheiro que ganho".

"E o que será do dia de amanhã?", perguntou o rei.
"Não me preocupo com isso", retrucou o homem, assim como está nos Salmos, eu digo: "Bendito seja D'us cada dia, dia após dia".
O rei ficou muito impressionado com essa atitude e prometeu voltar no dia seguinte.

Para testar o novo amigo, o rei promulgou um decreto: ninguém poderia consertar sapatos sem uma licença. E voltou a visitá-lo na noite seguinte, encontrando-o sentado em sua pobre cabana, comendo, bebendo e louvando a D'us. O homem convidou-o novamente a participar da frugal refeição, porque "um convidado é um presente de D'us". O rei ouviu o homem lhe contar:

"Não podendo consertar sapatos, por decreto do rei, resolvi tirar água do poço para as pessoas, para ganhar um pouco de dinheiro e comprar meu sustento".
"E o que você faria se o rei proibisse isso?"
"Direi: Bendito seja D'us, dia após dia."

Mas o rei decidiu testar mais uma vez o homem e decretou que seus súditos estavam proibidos de tirar água dos poços sem licença. Na noite seguinte, voltando novamente à cabana, o rei foi recebido por seu novo amigo com alegria e o ouviu novamente declarar sua fé em D'us .

O rei não estava convencido e decidiu testar mais e mais o homem. Este passou a cortar lenha para garantir seu sustento e, quando isto também foi proibido pelo rei, não desanimou e apresentou-se ao palácio real para fazer parte da guarda real.

O homem que foi sapateiro, depois carregador de água e, em seguida, lenhador, recebeu uma espada, para ser guarda. À noite, sem ter recebido o pagamento, foi até uma loja e trocou a lâmina de sua espada por um pouco de comida e colocou uma lâmina de madeira no cabo, cobrindo-a com a bainha.

Logo depois, o rei chegou. Eles seguiram o mesmo ritual, comendo e conversando até tarde. O amigo lhe contou sobre a espada.

"E se houver uma inspeção nas espadas, o que você fará?", quis saber o rei.
"Bendito seja D'us, dia após dia", respondeu o homem, mais uma vez não demonstrando preocupação alguma.

No dia seguinte, o capitão dos guardas ordenou ao homem que decapitasse um prisioneiro, por ordem do rei.
"Nunca matei ninguém em toda minha vida. Como posso fazer isso", retrucou o homem, abaixando a cabeça e recitando o Salmo: "Bendito seja D'us, dia após dia". Logo ocorreu-lhe uma brilhante idéia e se precipitou para obedecer à ordem do rei. Na frente de uma multidão que viera para assistir a execução, pegou a sua espada e gritou: "D'us Todo-Poderoso, o Senhor sabe que eu não sou um assassino. Se o prisioneiro for culpado, deixe minha espada ser de aço. Mas, se ele for inocente, faça com que a lâmina de aço transforme-se em madeira". Dizendo isso, puxou a bainha e, ohh!, a espada era de madeira! Todos ficaram pasmos de surpresa.

O rei chamou o sapateiro e o abraçou. Contou-lhe sobre o seu disfarce e os testes pelos quais o fizera passar.

"Eu nunca tinha encontrado um homem com tamanha fé", disse o rei. E foi assim que o sapateiro, que se tornou carregador de água e, depois, lenhador e, afinal, guarda real, tornou-se o conselheiro do rei.

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MAIS LONGE DO QUE O PARAÍSO

Toda sexta-feira, durante o mês de Elul, o rabino de Nemirov desaparecia. Ninguém conhecia o seu destino. Onde o rabino poderia estar? No paraíso, sem dúvida, pedindo a D’us que trouxesse a paz no Ano Novo, acreditava a população da pequena cidade. Onde poderia estar o rabino? Um morador do vilarejo decidiu desvendar o mistério.

Uma noite, escondeu-se embaixo da cama do rabino e esperou. Pouco antes do amanhecer, o rabino acordou e começou a se vestir. Pôs calças de trabalhador, botas de cano alto, um grande chapéu, um casaco e um cinto largo. Colocou, também, uma corda em seu bolso, amarrou um machado no cinto e partiu, seguido pelo morador do vilarejo.

O rabino mergulhou nas sombras, afastando-se da cidade e subitamente parou. Pegou o machado, derrubou uma pequena árvore, transformando seu tronco em toras. Então juntou a madeira, amarrou-a com a corda, colocou-a sobre suas costas e começou a andar, até chegar a uma pequena cabana em cuja janela bateu.

"Quem está aí?" Perguntou assustada uma mulher doente.

"Sou eu, Vassil, o camponês", respondeu o rabino, entrando na cabana. "Tenho madeira para vender".

"Sou uma pobre viúva; onde arranjarei dinheiro?", perguntou.

"Eu lhe emprestarei", respondeu o rabino.

"Mas como vou devolver-lhe o dinheiro?", replicou a mulher.

"Confio em você", disse o rabino.

Colocando a madeira no fogão, acendeu o fogo e partiu em silêncio.

Desde então, sempre que alguém diz que o rabino vai ao paraíso, o morador que o seguira apenas acrescenta: "Paraíso? Se não mais alto".

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Obrigado pela leitura!

Pesquisa, tradução e edição: Rakel Mastrandea Eretyz e Vital Ben Waisermman.

Jerusalém, 21 de Adar de 5773 / Maringá, 04 de Março de 2013.

Laila Tov Lé kulam ! Boa Noite à Todos!

Atenciosamente,   Vital Ben Waisermman,  responsável pelo Blog!

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