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24/01/2014 - 15h52 - visualizações

Dramas da lona

Autor Wilame Prado
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Atores do Circo Teatro Sem Lona ensaiando na Oficina de Teatro da UEM, local da estreia do espetáculo “O Drama de Nely e Alberto” (Foto de João Cláudio Fragoso)


Por Wilame Prado


Circo é sinônimo de alegria. Mas nem só de felicidade viveram os espetáculos circenses. Nas décadas de 1950, 60 e 70, principalmente no Brasil, fez sucesso o chamado circo-teatro e que tinha no melodrama a receita principal para emocionar a plateia no segundo ato dos espetáculos circenses, após as tradicionais palhaçadas, mágicas e malabares.


O ator e dramaturgo Pedro Ochôa, 49 anos, recorda-se da época de infância, quando, na região sul-paranaense – Pato Branco, Clevelândia e Francisco Beltrão – ia com a família ao circo. A primeira peça que ele se lembra ter visto - sentado em uma humilde cadeira, debaixo de uma lona -, foi o sucesso “E o Céu Uniu Dois Corações”, do paulista Antenor Pimenta, um dos mais conhecidos autores de circo-teatro, nascido e vivido em Ribeirão Preto (SP), onde morreu em 1994, em pleno dia de jogo do Brasil pela Copa do Mundo.


Inspirando-se em “E o Céu Uniu Dois Corações” e unindo as reminiscências infantis com as pesquisas sobre o circo-teatro, Ochôa criou o espetáculo “O Drama de Nely e Alberto”, que o Circo Teatro Sem Lona estreia hoje, no Teatro de Oficina da UEM, às 21h, com entrada franca. O novo trabalho da trupe de clowns maringaenses – que completa 15 anos em 2014 – se apropria do dramalhão escrito por Pimenta para apresentar um espetáculo tragicômico, unindo histórias de família, ironia, palhaços bufões e música.


O lado dramático da coisa é assim: Nely e Alberto se amam, mas vivem em mundos opostos. Um é rico, o outro é pobre. No final das contas, por causa da distância entre os dois e também pela ganância dos vilões da história, quase todo mundo morre no decorrer do enredo. Mas é no céu o local onde o amor sempre fala mais alto. É no céu que Nely e Alberto se reencontram e onde dois corações se unem.


Bonito e triste. Coisas de Antenor Pimenta e sua memória fértil na criação de peças para entreter um público que prestigiava o circo também pelas gargalhadas, mas muito também pelas lágrimas, algo hoje parecido com as novelas na televisão: o público ri e chora, torcendo pelos personagens.


O Circo Teatro Sem Lona suavizou o melodrama, carregou na vestimenta, no tom de voz e nas músicas tocadas e cantadas pelos clowns e pretende arrancar da plateia gargalhadas com “O Drama de Nely e Alberto”, recheado, sim, de mortes e mais mortes – do jeito que gostava Pimenta – mas tudo com muita ironia e inteligência.


É o que almeja Ochôa e toda sua trupe, que está há quase dois anos trabalhando na pesquisa e na dramaturgia do novo espetáculo. Os ensaios começaram em agosto do ano passado, confirma o diretor da peça. Mas nestes primeiros dias de 2014, a ralação com os ensaios tem sido maior. Ele calcula estarem ensaiando pelo menos dez horas por dia nesta semana de estreia.


Ochôa diz que a proposta com o novo espetáculo é levar à plateia algo menos naturalista que as peças apresentadas antigamente nos circos e fazer uma leitura mais expressionista. Uma conexão entre o universo clown do Circo Teatro Sem Lona com o circo-teatro – enfraquecido na década de 1980, sendo apenas algo trabalhado por companhias de teatro e não por circos itinerantes, que hoje preferem os leões, o Globo da Morte e os imbatíveis palhaços, mágicos e malabaristas.


“Ver a morte de uma maneira irônica, com os exageros de palhaços bufônicos, talvez faça a gente rir um pouco mais da vida. Os dramas – principalmente os dramas familiares – não precisam ser tão dramalhões assim. É o que queremos levar no espetáculo: uma história cheia de mortes, mas mortes sendo mostradas por palhaços que cantam e que são engraçados”, diz o autor e diretor.


Aniceto Matti Para a criação, estreia e turnê do espetáculo “O Drama de Nely e Alberto”, o Circo Teatro Sem Lona conta com o recurso de R$ 50 mil conquistado no edital de 2012 do Prêmio Aniceto Matti, na categoria Artes Cênicas. O espetáculo, adaptado e dirigido por Pedro Ochôa, tem no elenco Mateus Moscheta, Ester Bello, Andressa Costa Curta, Bruna Carvalho, Flavio Cardoso e o próprio Ochôa. A cenografia e Figurinos são de Nágela Souza. A produção é de Rafael Ochôa.


Além da estreia de amanhã no Teatro de Oficina da UEM, “O Drama de Nely e Alberto” segue em temporada no Teatro Barracão (de 25 a 29 de janeiro, às 21h) e no Teatro Reviver (de 30 de janeiro a 2 de fevereiro, também às 21h), sempre com entrada franca. A classificação é de 14 anos.


PALCO O DRAMA DE NELY E ALBERTO Circo Teatro Sem Lona Quando: hoje Onde: Oficina de Teatro (UEM) Horário: 21h Entrada franca Em cartaz no Teatro Barracão (25 a 29 de janeiro) e no Teatro Reviver (30/01 a 02/02)


*Reportagem publicada quinta-feira (23) no Caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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