Logo do Jornal ODiário.com
Sem Categoria-83
27/04/2013 - 17h57 - visualizações

Surdocega de Maringá recebe máquina obtida em campanha no Facebook

Autor Luiz de Carvalho
.
Denise viajou mais de 100 quilômetros para entregar a máquina de Braille comprada depois de movimentação pelo Facebook

Graças a uma movimentação realizada por meio do Facebook e outras redes sociais na internet, a surdocega Juliana Venâncio da Silva, moradora em Maringá, recebeu neste sábado uma máquina de datilografia Braille comprada por pessoas que moram em locais distantes, como Alemanha, Inglaterra e no Estado de São Paulo, e nem a conhecem.

A entrega foi feita por Deise Batalini, comerciante moradora em Teodoro Sampaio, que viajou 146 quilômetros até Maringá para entregar a máquina e conhecer a surdocega que sensibilizou tanta gente. Familiares e amigos de Juliana se reuniram na casa da família, no Conjunto Hermann Moraes de Barros, para recepcionar a visitante e participar de um momento tão importante na vida da garota que perdeu a visão e a audição ainda criança.

Juliana sabia que receberia um presente neste sábado, mas não tinha ideia de que tratava-se de uma máquina de Braille. Mesmo sem enxergar, ela própria abriu a caixa, por meio do tato reconheceu que tratava-se da máquina e sozinha colocou o papel e escreveu as primeiras palavras.

Juliana tem 36 anos, mas parece uma menina, que sorri muito e tenta ser agradável com quem está por perto. Mas, por trás da aparência lânguida está uma pessoa com graves problemas de saúde desde os primeiros meses de vida. Aos 10 meses foi diagnosticada com reumatismo no sangue, quatro meses depois perdeu a visão e os médicos preveniram aos pais, os pioneiros Moacir e Rosária Venâncio da Silva, que a menina tinha catarata, glaucoma, artrite e outras doenças. Antes de completar dois anos de idade já tinha passado por cinco cirurgias e praticamente morava dentro de um hospital em São Paulo, para onde foi enviada com a mãe. Aos quatro anos começou a perder a audição e passou por mais cinco cirurgias e oito aplicações. Até hoje está em tratamento, tem pressão alta, diabetes, hipertireodismo, problemas cardíacos e outras doenças.

Como a visão e a audição são os sentidos mais importantes na vida de uma pessoa, por serem os meios que possibilitam o recebimento de informações, a menina foi perdendo o contato com o mundo. Por ter ficado surda, também perdeu a capacidade de falar. Ainda criança, Juliana foi matriculada em escolas especiais, mas os problemas de saúde impediram uma frequência normal.

A entrega da máquina de Braille neste sábado foi o desfecho de uma história que começou quando sua professora, Elizabeth Dumont, postou no Facebook um vídeo em que Juliana aparecia cantando um pedaço de uma conhecida canção do Padre Zezinho. A mulher que não ouvia e nem enxergava, e por isto tinha perdido também a capacidade de falar, surpreendeu os conhecidos, mas o vídeo foi visto em outros países por pessoas quem conhecem Juliana e nem a professora. Muitos quiseram saber como uma pessoa surdocega, com limitações na fala, tinha chegado a esse ponto.

A mudança, na realidade, foi lenta. Já depois de adulta, Juliana passou a receber professores de educação especial em casa e aos poucos foi desenvolvendo formas de comunicação. Hoje, ela conhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras), domina o sistema Braille tanto para ler quanto para escrever, o Alfabeto das Duas Mãos, Libras Tátil e o Método Tadoma, também conhecido como leitura labial tátil, em que a pessoa surdocega coloca o polegar na boca do falante e os dedos ao longo do queixo, conseguindo entender por meio do movimento das bochechas e lábios e vibração da garganta.

Reaprendendo a falar, Juliana se refere com carinho às professoras que trabalharam com ela nestes anos. Nos últimos quatro anos, seu anjo, como diz, é a professora Elizabeth Dumont, a Betinha, que a incentiva a expressar o que sente por meio da escrita. Ela já conheceu a Catedral de Maringá, sentindo-a com os dedos no concreto das paredes, bancos e imagens, tocou e cheirou flores diversas, mas o que mais a entusiasma é escrever. Depois de colocar no papel o que sentiu em diversas situações, agora Juliana está escrevendo um diário, onde relata tudo o que a envolveu em cada dia, inclusive as dificuldades físicas.

“Conseguimos uma máquina de datilografia Braille da escola e ela se empolgou, passa os dias escrevendo um diário e isto aumentou sua autoestima por estar conseguindo externar aquilo que não podia antes”, diz Betinha. O entusiasmo é tanto que Juliana agora manifesta o desejo de escrever também em letra cursiva. Alguns desenhos ela já consegue fazer e espanta as pessoas ao conseguir retratar coisas que não vê. “Possivelmente sejam resíduos de lembranças do pouco tempo em que conseguiu enxergar na infância”, considera a professora.

.
Sozinha, Juliana desempacotou a máquina, colocou o papel e digitou as primeiras palavras

Por usar uma máquina emprestada, sempre que termina o ano letivo Juliana tem que devolvê-la à escola e assim os períodos de férias acabam tornando-se uma tortura para a mulher. “Ela fica sem poder escrever e isto, além de prejudicar seu desenvolvimento, a faz sofrer por não poder se expressar”, diz dona Rosária, a mãe. “Ela fica irritada e as doenças acabam atingindo-a mais do que quando ela está feliz e se realizando”.

Ao postar em seu Facebook Juliana catando “Um barco esquecido na praia”, Betinha acrescentou a informação de que ela era cega, surda e estava reaprendendo a falar, que sabia Braille e produzia um diário em uma máquina emprestada. A professora relatou o problema que significava, para Juliana, o final de ano letivo e que esse transtorno só seria solucionado se ela tivesse uma máquina de Braille própria.

A mensagem da professora causou imediata reação e brasileiros que moram em outros países se propuseram a fazer uma arrecadação para dar uma máquina a Juliana. Denise Batalini Demirhan, uma paulista que mora na região da Bavária, na Alemanha, e Andreia Mendes, que vive em Londres, Inglaterra, que não se conhecem e nem conhecem a surdocega, organizaram a arrecadação com a participação de conhecidos delas que vivem no Brasil. Até festas foram realizadas na região de Teodoro Sampaio para arrecadar fundos. Os participantes sabiam do objetivo, mas também não conheciam a garota que seria beneficiada.

595097
0 Comentários
Foto do usuário que comentou a matéria

Relacionadas