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29/01/2019 - 12h37 - visualizações

A crise ética da Engenharia e a inoperância do CONFEA-CREA

Autor fernandonande
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Manifestante em ato de protesto na sede da Vale no Rio de Janeiro. Foto:Tomaz Silva/Agência Brasil

O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA), Sistema que agrega os Conselhos Regionais (CREAs) e outras entidades ligadas às engenharias, somente ontem divulgou nota sobre o rompimento da barragem em Minas Gerais e a tragédia que pode ser contada em número de mortos e desaparecidos. O título da nota já é um escárnio: "Entidades do Sistema lamentam tragédia em Brumadinho".

Isso mesmo, pelo título da infeliz nota, escrita por "trocentas mãos limpas" de membros de inocentes entidades, dá para ver que o órgão que deveria cobrar responsabilidades sobre o exercício da profissão de Engenheiro no Brasil, lamenta, mas nada diz sobre seu papel na fiscalização e punição dos responsáveis técnicos da barragem. Muito pelo contrário, coloca no colo do governo toda a culpa, pois tudo não passa de questões ambientais mal resolvidas e que "alertariam" o governo e não as entidades representativas dos engenheiros: "Com um alerta ao governo federal para a necessidade de rigor na fiscalização e no cumprimento da legislação ambiental e de respectivos protocolos de segurança", é como se manifesta a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge).

A cara-de-pau dessa Federação, com seu discurso "do controle social" e outras balelas tão ao gosto do PT et caterva, encampado pelo Sistema CONFEA, não para por aí: “A tragédia, resultante de negligências diante de alertas da sociedade civil organizada, impõe ao Brasil a urgente tarefa de controle social desses empreendimentos. Reivindicamos, ainda, o fortalecimento das instituições públicas de fiscalização, auditoria e monitoramento, bem como responsabilização, punição rigorosa aos envolvidos e reparação às famílias e à população atingida”. E conclui, enaltecendo a “competência, a inteligência e a capacidade técnica da engenharia brasileira e de especialistas das universidades públicas em proporcionar soluções para a contenção de danos, logística e reconstrução da região”.

PQP! Os suspeitos laudos técnicos foram dados por engenheiros - alguns já presos - e empresas de Engenharia, não só nessa barragens, mas em todas. E pela nota, parece que os laudos saíram do nada, suprimindo o real papel do Sistema CONFEA e CREAs regionais, autarquias que deveriam fiscalizar o exercício profissional, peitar as empresas, sugerir e implementar normas rigorosas de operações para o pessoal das engenharias e técnicos que diz representar, inclusive sob o ponto de vista ético que, pela sua ausência, coloca as engenharias do Brasil em cheque.

Essas autarquias profissionais deveriam ter compromissos com o cidadão, mas tudo ali se decide intramuros, a mais das vezes no mais completo sigilo. Para se ter uma ideia da falta de compromisso com a população brasileira, o CONFEA permite o funcionamento de cursos de engenharia a distancia. Além dos cursos em faculdades de fundo de quintal, que faturam horrores com suas mensalidades, em que o aluno, certamente, faz seus ensaios em laboratórios virtuais de solo.

Eis o ponto. O CONFEA nasceu em 1933 pela batuta do ditador Getúlio Vargas, inspirado pelo modelo fascista de Mussolini (1927 - Carta do Trabalho), que trazia para o atrelamento ao Estado órgãos de classe (sindicatos, patronais e laborais) e entidades de regularização e fiscalização de alguma profissões, conhecidas no Brasil como conselhos profissionais.

Com o tempo, esses conselhos tornaram-se serviços autárquicos arrecadadores, felizes sob o manto de governos, com muita pompa para seus dirigentes e pouca fiscalização profissional de fato - algo muito parecido com uma confraria mutualista com ares de serviço público, gigante em caixa e participantes. Autarquias que abusam de mordomias em reuniões, sempre em excelentes hotéis, com sedes imponentes, mas pouco ou nada atuantes, ao se esconderem por trás de sigilos e salamaleques, enquanto as vítimas de seus representados são expostas ao público em sofrimento e morte provocados por incompetentes.

Isso talvez também nos explique, por exemplo, o grande silêncio do Sistema CONFEA perante o escândalo da Lava Jato, com engenheiros presos, sem contar as grandes empresas de engenharia envolvidas no mar de lama. É o silêncio da ética - o pior dos silêncios.

O CONFEA deve, no mínimo, um pedido de desculpas aos cidadãos brasileiros, ao assumir sua omissão nos deveres da entidade e ao não acusar, por exemplo, as deficiências no ensino das engenharias no Brasil e as relações nada republicanas entre as empresas certificadoras e seus clientes. O CONFEA deve ainda, um grande pedido de desculpas aos que morrem por sua inoperância e, sobremodo, aos bons engenheiros, que são colocados no mesmo balaio dos incompetentes, por seu Conselho profissional não dar realmente os nome aos bois e falar a verdade.

Leiam aqui a nota do CONFEA.

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