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06/02/2018 - 09h21 - visualizações

Antideprê, a busca intolerável ao fim do desconforto e sofrimento

Autor Diniz Neto

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Quanto de cuidado tenho ao tocar sobre o tema sofrimento, seja ele advindo de doenças, traumas ou crises. Conheço muito bem o assunto, pois lido com ele todos os dias, na minha rotina de vida e trabalho.
Muito tem me angustiado escrever o que leio e releio todos os dias. Lamento o quanto vulgarizamos tais discussões e o quanto criamos este hábito, o da crítica meramente feita sem sentido, estudo e compreensão.
A filosofia tem me norteado nos últimos 20 anos da minha existência como forma de compreensão sobre minha vida e minhas escolhas. Também tem me orientando e fundamentando meu trabalho como psicóloga. Atualmente, grandes filósofos e historiadores do nosso país vêm agregando valores ao nosso cotidiano, nos expondo e nos fomentando à reflexão e à crítica. Mas foi Zygmunt Bauman que me encorajou na tentativa de organizar este pensar.
Relendo sua entrevista à IstoÉ (edição 2507, de 5 de janeiro) o sociólogo e filósofo polonês deslindou o crescimento da utilização de antidepressivos, consumo de medicamentos que, segundo ele, é um dos sintomas na nossa crescente intolerância ao sofrimento. “Em uma vida regulada por mercados consumidores, as pessoas passaram a acreditar que, para cada problema, há uma solução. E que esta solução pode ser comprada na loja. Que a tarefa do doente não é tanto usar sua habilidade para superar a dificuldade, mas para encontrar a loja certa que venda o produto certo que irá superar a dificuldade em seu lugar. Não foi provado que essa nova atitude diminui nossas dores. Mas foi provado, além de qualquer dúvida razoável, que a nossa induzida intolerância à dor é uma fonte inesgotável de lucros comerciais. Por essa razão, podemos esperar que essa nossa intolerância se agrave ainda mais, em vez de ser atenuada”.
O problema não está na tentativa em cessar tal dor, afinal ninguém ou poucos gostam de sofrer, mas sim na ignorância em acreditar que o sofrimento pode ser “inocentando” pela felicidade.
Estamos preguiçosos, ouso dizer, ligeiramente “malandros” quanto à nossa capacidade e habilidade no enfrentamento da dor. Prefiro não discorrer sobre suas causas. Pretendo apenas provocar nossa mente à compreensão da ignorância sobre o sofrimento, já que dele nossa vida é inerente.
Desconsideramos que a angústia, a dor, o sofrimento e a tristeza são sinônimos de existência. Nos tapeamos com a compra barata da felicidade efêmera, perdemos o sentido do que nos dá sentido, vivemos em uma “modernidade líquida”, conceito também desenvolvido pelo autor, cujo sentido fragiliza e escoa, não nos permitindo a oportunidade de “solidificar” ou perdurar. Vivemos insanamente nos entupindo e buscando novas doses controladoras de sofrimento.

Psicóloga Djeyme

Artigo orginalmente publicado no site psicologadjeyme.com.br

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