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14/12/2013 - 22h34 - visualizações

Oportunidade perdida

Autor José Pedriali

Editorial da Gazeta do Povo

O Estatuto do Partido dos Trabalhadores, em seu artigo 231, prevê os casos em que membros do partido serão expulsos. O inciso II diz que será expulso quem for considerado culpado de “inobservância grave dos princípios programáticos, da ética, da disciplina e dos deveres partidários”, um conceito um pouco subjetivo, especificamente no que se refere à ética. Mas o inciso XII é mais objetivo: a legenda expulsará quem tiver “condenação por crime infamante ou por práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado”. Seria o caso dos presidiários mensaleiros. No entanto, em vez de expulsos, José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares estão sendo homenageados no 5.º Congresso Nacional do PT, iniciado na quinta-feira.

Na manhã de ontem, houve um ato de desagravo aos mensaleiros condenados, com a participação de parentes de Dirceu, Genoino e Delúbio e do deputado João Paulo Cunha – ele mesmo um dos condenados, e que aguarda o julgamento de um recurso. Foram distribuídos adesivos pedindo a anulação do julgamento, e todos os discursos batiam na mesma tecla, a da inocência dos mensaleiros. O presidente da legenda, Rui Falcão, permaneceu na plateia, mas disse à imprensa que o partido continuará apoiando manifestações de solidariedade a seus membros presos. “Já lançamos recentemente alguns documentos falando do caso. Se militantes quiserem fazer mais atos como esse, nós daremos a oportunidade”, avisou.

Falcão nem precisava mesmo ter discursado ontem. Na abertura do congresso, anteontem, já deu seu recado. “Ninguém pode se arvorar no direito de nos dar lição de ética. Ninguém pode se arvorar no direito de nos ensinar qual o verdadeiro sentido da política. Ninguém pode se arvorar no direito de nos ensinar o que significa justiça social. Mas nós, sim, podemos e devemos dar uma lição permanente, a nós mesmos, de renovação, autocrítica e de avanço”, disse, diante da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. Pior ainda: Falcão atacou o Supremo Tribunal Federal, ao chamar o julgamento do mensalão de “tsunami de manipulação”.

Dilma preferiu não falar do mensalão e se limitou a enaltecer feitos de seu governo, como o programa Mais Médicos. Mas Lula não se conteve. Logo depois de ter dito “não falarei da Ação Penal 470 enquanto não terminar a última votação”, criticou a imprensa. “Se for comparar o emprego do José Dirceu no hotel com a cocaína no helicóptero, o que a gente percebe é que houve uma desproporcionalidade na divulgação do assunto”, afirmou. Obviamente Lula não ignora que a cobertura do escândalo do helicópterio do senador José Perrella teve ampla divulgação, e que o caso do emprego oferecido a José Dirceu em um hotel merecia, sim, a divulgação que teve, ainda mais depois que foi revelado o laranjal que envolve a propriedade do Hotel St. Peter e as ligações entre o governo e o “dono” que ofereceu a Dirceu o emprego de R$ 20 mil mensais. Mas, para Lula, como para Rui Falcão, toda a cobertura sobre os petistas será sempre exagerada, enquanto toda a cobertura sobre os demais políticos nunca será suficiente. Imprensa boa, para Lula e Falcão, é aquela em que petistas só aparecem para receber elogios, enquanto os adversários só recebem críticas.

Lula ainda mostrou uma percepção um tanto distorcida da realidade econômica do país, ao afirmar que “não tem nenhum país com mais responsabilidade fiscal entre os emergentes”. O homem que, ainda durante seu período na Presidência, disse que o Democratas devia ser “extirpado” da política brasileira, voltou a usar metáforas belicosas para se referir às eleições do ano que vem. “Você tem de se preparar que vai ser uma guerra”, disse a Dilma, mostrando que, para ele, na política não há adversários contra quem se disputam cargos e com quem se debatem projetos para o país, mas inimigos que precisam ser eliminados.

Críticas ao Supremo Tribunal Federal, ataques à imprensa livre, intolerância em relação aos que estão do outro lado do espectro político, defesa de criminosos condenados: é nisto que se transformou, infelizmente, o 5.º Congresso Nacional do PT. Uma legenda com tanta penetração e militância poderia dar uma contribuição positiva ao Brasil, mas que, em vez de fazer a autocrítica e renovação pedidas (da boca para fora, claro) por Rui Falcão, prefere, a julgar por sua cúpula e pelos gritos de guerra dos delegados presentes ao evento, se manter apegada a ideologias ultrapassadas e ao ataque às instituições democráticas.

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